Oscar 2018: minha ordem de preferência na categoria Melhor Filme

O Oscar está mudando. Ainda que a passos lentos, ano a ano, o prêmio deixa de lado os chamados os épicos edificantes e as narrativas clássicas dos chamados “filmes com cara de Oscar” para abraçar um cinema mais contemporâneo, diversificado e atual.

Esse ano, por exemplo, temos um filme de terror que versa sobre racismo, uma comédia sobre o amadurecimento de uma adolescente e uma ficção científica com cara de produção B dos anos 1950, filmes inimagináveis de ter a estampa “indicado a melhor filme” até alguns anos atrás. Ainda assim, existe espaço para produções épicas, politizadas e cinebiografias burocráticas.

Eis então a minha ordem crescente de preferência dos indicados desse ano:

Três Anúncios para um Crime – Um dos favoritos, o filme tem como único mérito a atuação de Frances McDormand. No mais, o longa segue o mesmo estilo “violência engraçadinha” do diretor Martin McDonagh, com um roteiro esquemático que termina com uma piadinha em praticamente todas as cenas. Equivocado e leviano, o longa se esconde sob a máscara do “humor negro” e não passa de um sub-irmãos Coen errado.

The Post – A Guerra Secreta – O mais puro exemplar desse ano do gênero “filme feito para Oscar”, o longa é dirigido por Steven Spielberg e tem no elenco Meryl Streep e Tom Hanks defendendo a liberdade de imprensa em uma história real. Seria perfeito se não fosse a direção burocrática e preguiçosa de Spielberg e uma produção um tanto desleixada e sem graça, ainda que o filme funcione como passatempo. 

Corra! – Talvez esse seja o filme mais discutido e relevante de 2017. Mas em termos narrativos o longa começa interessante e se perde em um final meio bagunçado típico do gênero de terror. O longa tem um início estranhíssimo ao evocar uma nova onda de filmes de terror com uma pegada mais independente em que o horror está no comportamento do ser humano (realmente, cada vez mais assustador). Mas, em algum momento, o roteiro esperto se atropela e perde o impacto graças ao humor forçado e um final “meio” feliz.

O Despertar de uma Nação – Mais um da leva filmes importantes com cara de Oscar, esse aqui ganha pontos graças à direção floreada de Joe Wright, que consegue transformar uma potencial aula de história chata em uma produção envolvente. Às vezes, o roteiro escorrega nas frases feitas e o diretor na pieguice, mas isso não chega a atrapalhar. E Gary Oldman consegue sobreviver dignamente às toneladas de maquiagem e ao peso histórico do personagem..

A Forma da Água –  É bonito como Guillerme Del Toro consegue transformar um roteiro formulaico em sua estrutura em algo que vai além ao gênero “filme de monstro”. Embalado em uma plasticidade deslumbrante, o longa encanta ao transformar personagens geralmente periféricos em protagonistas não apenas adoráveis, mas em heróis diante do status quo. Talvez a produção exagere um pouco em seu vilão caricatural, mas talvez não, e o que ele representa (uma sociedade conversadora ultrapassada) seja mesmo isso: uma caricatura equivocada.

Trama Fantasma – Só mesmo Paul Thomas Anderson e sua obsessão pelo detalhe para transformar um romance abusivo e obsessivo em um filme classudo e elegante. Narrativamente ousado e visualmente deslumbrante, a produção pode não evocar a genialidade de “Boogie Nights” e “Magnólia”, mas é um belo avanço em relação aos irregulares “O Mestre” e “Vício Inerente”. Daniel Day-Lewis, teoricamente, se despede do cinema em mais um grande papel, mas a veterana Lesley Manville e a desconhecida Vicky Kripes são os destaques nesse desbunde audiovisual.

Dunkirk – Christopher Nolan deixa de lado a grandiosidade e o didatismo habitual para entregar o seu melhor filme. Aqui, quase não há “trama” e os diálogos são econômicos e contextuais. O diretor está mais interessado em contar uma história visual poderosa, tensa e melancólica. Mas o maior mérito do longa é não dar sentido e propósito à guerra. Não há uma missão a ser cumprida ou mesmo lados vitoriosos; o “vilão” não tem rosto e os atos de heroísmo, na verdade, visam apenas a sobrevivência. Além dessa chave bem importante, o longa ainda é lindamente filmado, com uma fotografia impactante e uma trilha sonora bem menos intrusiva de Hans Zimmer, ainda que não haja silêncios e ela marque a edição do filme. 

Me Chame Pelo Seu Nome – O cinema de Lucas Guadagnino é o do #whitepeopleproblem, mas ele sabe como ninguém filmar essas personagens cultas, ricas, bronzeadas e que discutem arte e literatura de forma quase sexy. Aqui, o cineasta usa sua caligrafia cinematográfica de forma delicada e a favor de um romance que surge de olhares e toques. Ele deixa de lado a polêmica que poderia envolver a idade dos protagonistas para mostrar o nascimento de uma paixão intensa e passageira, mas marcante. O diálogo entre Elio e o pai e o close final no rapaz ao som de Sufjan Stevens estão entre as cenas mais belas do cinema em 2017.

Lady Bird – A Hora de Voar – Greta Gerwig dirige tudo de forma tão honesta e o texto é tão incrível que fica fácil esse rito de passagem se tornar uma história universal sobre amadurecimento que fale para todos, independente de idade e origens. Aparentemente, a produção é mais uma entre tantas produções fofinhas, mas o filme é muito mais do que um filme bonitinho. É tudo tão envolvente, do elenco cheio de carisma à encenação deliciosa, que quando o longa termina parece que ele te deu abraço apertado. A cena da mãe (uma Laurie Metcalf maravilhosa) dirigindo o carro no aeroporto é de uma beleza rara.

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