Steven Spielberg e a ficção científica

Dono de uma filmografia bastante eclética, Steven Spielberg começou a carreira como um garoto-prodígio do cinema e teve que ralar muito para ser visto como um cineasta sério, graças a uma pegada mais sentimental e ao próprio tipo de filme-espetáculo que ele ajudou a criar.

Entre dramas de guerra, biografias históricas, filmes fantasiosos e algumas comédias, o diretor deu vida a tubarões, dinossauros e alienígenas em grande escala na tela grande e os colocou no imaginário cinematográfico do grande público que não assistia a produções B de sci-fi.

Dentro dessa vasta cartela de filmes, o cineasta tem pelos menos dois clássicos da ficção científica no currículo e explorou os mais diversos temas: invasão alienígena, destruição em massa, inteligência artificial, a manipulação do futuro e, agora, uma realidade alternativa vivida dentro de um universo que parece um videogame.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977)

Junto com “Tubarão” (1976), esse longa colocou Steven Spielberg no mapa do grande cinema e ajudou a moldar o conceito do hoje chamado blockbuster. Nessa ficção científica que versa sobre o contato entre humanos e uma outra raça, o cineasta repete a fórmula de “Tubarão” (e que viraria uma de suas marcas registradas) ao colocar uma família no centro de um evento extraordinário. Um pai de família “enlouquece” após ver naves espaciais luminosas no céu e fica obcecado em entender o que presenciou. Visualmente revolucionário para a época, o filme traz uma fotografia belíssima (vencedora do Oscar) e efeitos especiais até hoje impactantes em uma narrativa envolvente que deixa de lado questões filosóficas sobre “estamos ou não estamos sós no universo?” para centrar no espetáculo.

E.T – O Extraterrestre (1982)

Clássico é clássico e “E.T – O Extraterrestre” continua a emocionar mais de 35 anos depois de seu lançamento. Um sucesso na época, o filme é outro exemplar de sua filmografia que ajudou a moldar a imagem de Steven Spielberg, um diretor acostumado a misturar grandes espetáculos visuais com uma pegada mais familiar e sentimental. Esse longa é o ápice dessa mistura dosando com precisão ação, aventura, drama e um pouco de suspense. A história é simples (garoto encontra um ET perdido e cria um elo com a criatura), mas Spielberg constrói essa narrativa com carinho e alguns toques geniais (o ponto de vista é o das crianças e, até certo ponto da produção, a única adulta que aparece por inteiro é a mãe dos garotos). Mesmo sendo um poço de ingenuidade, ainda mais nos dias de hoje, o filme envelheceu bem, continuando carismático e catártico.

A.I: Inteligência Artificial (2001)

Depois do sucesso estrondoso de “ET – O Extraterrestre“, Spielberg levou quase 20 anos para voltar a dirigir uma sci-fi. Partindo de uma ideia e desenvolvimento do mestre Stanley Kubrick, o longa troca a narrativa mais espetacular de Spielberg por uma pegada existencial e filosófica, explorando a condição humana por meio do protagonista, um menino-robô capaz de amar. Cheio de referências que vão do conto de fadas “Pinóquio” a outros filmes, como “Blade Runner” e “Gattaca”, em sua bela cenografia e direção de arte, Spielberg acerta no ritmo do filme, que, apesar de ter duas horas e meia, passa num piscar de olhos, e no elenco, com destaque para a inspirada interpretação de Haley Joey Osment, o garotinho de “O Sexto Sentido”. Por outro lado, o cineasta erra ao tentar amenizar o tom sombrio da produção com um final piegas que tira, e muito, o brilho dessa obra incomum.

Minority Report (2002)

Dezesseis anos depois de seu lançamento, “Minority Report” mais parece um episódio extendido e de luxo de “Black Mirror“. A premissa é interessante e a encenação é muito bem conduzida por Steven Spielberg. No futuro, videntes preveem assassinatos, diminuindo a taxa alarmante de crimes. O cineasta faz a festa com essa ideia emprestada de um conto do mestre da ficção científica Philip K. Dick, principalmente na manipulação das imagens feitas pelo personagem de Tom Cruise. Mas estamos falando de Spielberg, Cruise e Hollywood, então, em algum ponto, o longa abandona as perguntas que lança e vira um jogo de gato e rato comum (mas muito bem feito) com uma resolução piegas e simplista. Ainda assim, além da ótima direção de arte e fotografia e dos efeitos especiais, o filme tem pelo menos uma cena genial: a perseguição das “aranhas” em um prédio. 

Guerra dos Mundos (2005)

Steven Spielberg fez fama explorando o lado pacífico de alienígenas em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” e “E.T.“.  Nessa adaptação do clássico de H.G. Wells, o cineasta usa uma invasão alienígena para criar um exercício de tensão que tem seus erros e acertos. Entre os pontos positivos do longa está o ritmo acelerado, os ótimos efeitos e uma ambientação que grita suspense. O diretor também acerta ao transformar Tom Cruise, um dos grandes heróis do cinema norte-americano, em um cidadão comum que, aqui, apenas luta pela sobrevivência. O resultado é eletrizante e compensa as falhas do roteiro (Por que os ETs esconderiam máquinas por milhares de anos embaixo da Terra para conquista-la no futuro se poderiam muito bem conquista-la quando o planeta era desabitado? E eles passaram milhares de anos estudando a Terra e não se deram conta de existência de vírus?) ou a pegada mais ufanista e melodramática que toma conta da segunda metade da trama (a dinâmica da família é batida na filmografia do diretor e pouco acrescenta ao filme).

Jogador No. 1 (2018)

Chega a ser impressionante que Steven Spielberg tenha levado tanto tempo para fazer uma ficção científica menos pretensiosa e apenas em ritmo de aventura. É uma pena então que o resultado seja tão decepcionante,  parecendo um arremedo de “Tron”, “Matrix” e da animação “Detona Ralph”. Baseado no livro homônimo de Ernest Cline, o filme atropela suas próprias ideias em uma trama confusa e com diálogos vergonhosos. Para compensar, o cineasta imunda a produção em referências à cultura pop (a de “O Iluminado” é, particularmente, muito bem inserida na trama) e a embala com o melhor que Hollywood pode oferecer em termos de efeitos especiais. É divertido, mas foi-se o tempo que um filme de Spielberg podia ser apenas isso.

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