Chernobyl

Há vários violões em “Chernobyl”, minissérie da HBO que recria a tragédia nuclear que assustou o mundo em 1986. Todos eles são igualmente devastadores e ajudam, em menor ou maior grau, a transformar a trama em uma história de horror que massacra o espectador ao longo de seus cinco episódios. Existe o vilão invisível da radiação, a estupidez humana e o próprio regime comunista, cada um deles cumprindo um papel determinante para potencializar um acidente já alarmante por si só.

Criada por Craig Mazin (que tem em seu currículo o roteiro de filmes como “Todo Mundo em Pânico” e “Se Beber, Não Case”) e dirigida por Johan Renck (responsável por videoclipes de Madonna, Lana Del Rey e David Bowie), a minissérie usa muito bem os “violões” a seu favor, construindo uma narrativa ora claustrofóbica e tensa, ora desesperançosa e devastadora.

Sem rodeios, “Chernobyl” joga o espectador no centro do maior desastre nuclear da história da humanidade, mostrando uma sucessão de decisões erradas tomadas por “cientistas” que não sabiam realmente o que estava acontecendo. Aliado a isso, autoridades minimizam o potencial do acidente, ora por ignorância, ora por medo dos líderes do partido comunista, ora por diplomacia para tentar salvar a imagem do regime diante da comunidade internacional. Os resultados, claro, são catastróficos e, até hoje, o governo russo não divulga os números reais do acidente, contabilizando apenas os que morreram diretamente na explosão e desconsiderando milhares que foram contaminados e tiveram suas vidas encurtadas graças à exposição mortal à radiação.

Com uma abordagem quase documental, uma fotografia acinzentada e uma trilha sonora enervante que reforça a melancolia e urgência da situação, o espectador acompanha uma série de fatos que reconta os passos do acidente. Acompanhamos os bombeiros chegando completamente despreparados à usina, alheios ao próprio destino. Vemos a população da cidade vizinha que vive em função de Chernobyl contemplando a beleza das luzes brilhantes emitidas pelo incêndio, todos ignorantes ao poder destrutivo das cinzas que caem sob suas peles. Em seguida, o espectador se emociona com as cenas da população da cidade de Pripyat sendo evacuada e se revolta com as tentativas de funcionários da usina, de mineradores e jovens recrutados pelo governo em minimizar as consequências do desastre, muitos sem saber o real perigo que corriam.

Além do poder da própria história, que, inicialmente, concentra-se em momentos cruciais para a solução da questão, a minissérie balanceia muito bem o drama humano de pessoas que tiveram as vidas afetadas para sempre (caso da viúva de um dos bombeiros chamados para conter o incêndio causado pela explosão do reator da usina) com as questões políticas e ideológicas de uma nação que não queria assumir internacionalmente os seus próprios erros.

Em meio a essa trama dilacerante, que não poupa nem mesmo os animais de estimação da população local, a minissérie ainda se destaca em termos narrativos e audiovisuais, com uma estética realista que ganha auras de filme de terror graças à tensão proporcionada pelos efeitos sonoros metálicos que transformam a radiação quase em personagem e ao horror da maquiagem que recria os corpos em decomposição.

Uma das melhores produções recentes da TV, a minissérie é um importante e preciso documento histórico e um belo exercício audiovisual sobre um desastre que ainda reverbera nos dias de hoje. Mais de 30 anos depois, a área próxima à usina permanece contaminada (e ficará assim por milênios) e parte da população da região ainda sofre com doenças e deformidades causadas pela exposição à radiação e pela contaminação do meio ambiente.

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