
“Saltburn” é um filme lindo de se ver. Graças à fotografia vibrante, cheia cores e contrastes de Linus Sandgren (“La La Land” e “Babilônia”) e a direção de arte toda trabalhada na opulência, o segundo longa de Emerald Fennell (“Bela Vingança”) chama a atenção por uma encenação que fetichiza a vida de glória dos abastados. A produção tenta também embelezar o grotesco, já que uma das intenções da diretora é buscar o choque em meio à crueldade glamorizada de pessoas que nada fazem a não ser pegar sol, promover festas e jantares e ridicularizar os outros.
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Dona de um senso estético que já estava presente em “Bela Vingança”, Fennell se esbalda ainda mais nessa mistura desequilibrada de “Teorema”, do italiano Pier Paolo Pasolini, com pitadas de “O Talentoso Ripley”, de Anthony Minghella. Do primeiro, a cineasta pega emprestada a premissa de um jovem (o ótimo Barry Keoghan, em seu primeiro grande papel como protagonista) que se infiltra em uma família seduzindo cada um de seus membros. Do segundo, o tom de thriller e a personalidade um tanto misteriosa e evasiva do rapaz.

Ainda em seu segundo longa como diretora e roteirista, Fennell não é, no entanto, nenhum Minghella e muito menos Pasolini, perdendo o controle de seu filme à medida que a trama se desenvolve, deixando que a encenação de plumas e paetês assuma o papel principal. O resultado é que “Saltburn” é um filme que funciona muito mais por algumas de suas partes isoladas do que pelo todo, com as mudanças de tom e as reviravoltas apressadas atropelando a coerência da narrativa, ainda mais graças a um final que quer explicar tudo da forma mais óbvia e clichê, quase como se não confiasse no espectador.
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Esse final deixa ainda mais claro a falta de desenvolvimento do protagonista, o jovem rapaz pobre e sem amigos que cai nas graças do jovem rico mais cobiçado de Oxford e é convidado para passar um verão de luxo no palácio da família do rapaz. Mesmo que Keoghan seja um bom ator e engula a tela, o personagem começa e termina como uma incógnita, ainda que o roteiro deixe claro desde início a personalidade dúbia do rapaz (em cenas de espelhos que mostram, claro, vários reflexos do moço).

E é justamente na virada da trama da universidade para Saltburn, o palácio da família de um Jacob Elordi (“Euphoria”) quase etéreo, que o longa começa a se perder. A produção ganha em ostentação com a entrada de Richard E. Grant (que pouco tem a fazer em cena) e de Rosamund Pike (dona das melhores frases, mas que não convence como mãe de dois jovens adultos e menos ainda como uma mulher que casaria com o personagem de Grant). Em compensação, vai deixando de lado todos os temas que se propõe a discutir, em especial os conflitos de classes estabelecidos pelos estilos de vida diferentes dos personagens e mesmo a fluidez sexual do protagonista (o que faz “Saltburn” parecer um filme queer só por conveniência).
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Com muito a mostrar em cenas de jantares e uma festa que remete ao “Romeu + Julieta” de Baz Luhrmann, a “Euphoria” de Sam Levinson e mesmo à festa de “Babilônia” (também fotografada por Linus Sandgren), “Saltburn” parece ter muito pouco a dizer. Em um filme que quer se destacar pelo deslumbramento e pelo choque do grotesco, mas que pouco explora seus próprios temas, fica a estética pela estética, ainda que uma bela estética.
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