Promising Young Woman

Carey Mulligan é a principal razão da existência de “Promising Young Woman” (que no Brasil ganhou o título genérico de “Bela Vingança”) e o grande chamariz do filme (ela, inclusive, pode finalmente receber sua segunda indicação ao Oscar pelo papel). A atriz interpreta Cassie, uma jovem de 30 anos que abandona seus sonhos para se vingar dos machos, em especial aqueles que pagam de bom moço. Ex-estudante de medicina, Cassie ainda vive na casa dos pais e trabalha em uma cafeteria. Sem ambições profissionais, amigos e amantes, a jovem é uma incógnita para a sua chefe e para seus pais.

Cassie é um mistério também para o espectador. Quando “Promising Young Woman” começa, sabemos que ela teve um passado traumático envolvendo algum tipo de abuso sexual ou estupro. Mas nada é muito claro, inclusive o plano de vingança da jovem que passa noites se fingindo de bêbada para dar uma lição de moral em homens que, claro, tiram proveito de seu estado de fragilidade. Eles são presas fáceis e não decepcionam, sempre agindo de acordo com um conduta duvidosa e plenamente aceita, pelo menos antigamente, pela sociedade.

Assim como outros filmes atuais (“O Conto”, “O Escândalo”, “A Assistente”, “O Homem Invisível” e a minissérie “I May Destroy You), “Promising Young Woman” parece ser uma resposta cinematográfica ao movimento #MeToo, que nos últimos anos vem pregando e exigindo uma mudança de atitude da sociedade em relação a abusos sexuais e ao comportamento predador de homens que acreditam que tudo quando se fala em mulheres.

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O filme da atriz, roteirista e diretora estreante Emerald Fennell segue bem o ideal do movimento, mostrando com clareza o comportamento ora abusivo ora condescendente de homens e mulheres em relação ao assédio, estes muitas vezes adotando o caminho mais fácil: culpar a vítima. Com um roteiro esperto, o longa escancara o machismo de uma sociedade que teima em minimizar ou virar os olhos para a questão.

O que “Promising Young Woman”, infelizmente, não faz é balancear com precisão seus vários tons. Assumidamente uma comédia ácida sobre um tema delicado, a produção patina quando pula do tom de crítica para a comédia pastelão (algumas cenas parecem saídas de “Se Beber, Não Case!”) ou o romance/drama sem muita sutileza. A edição muitas vezes salta de uma situação para outra sem muito sentido, o que reforça ainda mais a esquizofrenia do longa.

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Talvez parte do problema seja a inexperiência de Fennell. Apesar de ter um bom olho para construir cenas icônicas, em vários momentos o senso estético da diretora parece atropelar a narrativa. Mas é preciso bater palmas para a cineasta pela coragem e ousadia de não tirar o pé do acelerador e nunca desviar as câmeras da conduta absurda dos personagens, inclusive a anti-heroína vivida com vontade por uma Carey Mulligan anos-luz do papel de menina ingênua que a consagrou em “Educação”.

O longa pode pecar por trazer uma visão um tanto maniqueísta de um mundo onde todos os homens são vilões e só estão à espera de uma oportunidade para mostrar seu verdadeiro caráter. Mas o roteiro da própria Fennell não poupa ninguém, inclusive as mulheres que viram as costas para outras em situações de abuso e assédio. Mesmo com falhas, é realmente um trabalho inteligente que cutuca a ferida e deixa uma sensação de incômodo ao longo de todo o filme. Outro mérito do texto e da direção é criar suspense, ainda que nem sempre de forma sutil, apenas inicialmente sugerindo o que Cassie faz quando atrai os homens com sua falsa bebedeira.

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