Nomadland

Frances McDormand é a cara da melancolia em “Nomadland”, drama existencial e poético sobre uma mulher que pega a estrada após perder o marido e o emprego. Uma espécie de road movie, o filme começa quase sem trama, mostrando a rotina dessa mulher que pula de emprego em emprego e dorme em acampamentos para vans.

Conhecemos a história de Fern por meio de conversas que ela tem com pessoas que, iguais a ela, abandonaram uma vida tradicional com um emprego formal e uma casa com teto em busca de algo que muitas delas nem mesmo sabem o que é, talvez liberdade, uma maior conexão com a natureza ou mesmo a fuga do passado.

São pessoas quebradas que tiveram que lidar com doenças ou perdas e desistiram de levar uma vida convencional em um país também em frangalhos, com pessoas sendo sugadas por um estilo de vida ditado por uma economia cada vez mais liberal (em um toque de ironia, em um de seus empregos temporários, Fern trabalha como empacotadora na Amazon, a empresa essência do capitalismo canibal).

Dirigido com delicadeza por Chloé Zhao (que comandará um dos próximos filmes da Marvel, “Os Eternos”), o filme adota um registro o mais naturalista possível. Os diálogos são quase banais, e a câmera, muitas vezes, acompanha Fern de uma forma contemplativa, com uma bela trilha sonora pontual e nada intrusiva. Boa parte do elenco é de não-atores e de pessoas interpretando a si mesmas, o que dá uma autenticidade ainda maior ao longa (a diretora já havia feito algo parecido no faroeste “Domando o Destino”).

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Mas ainda que Chloé Zhao, que, além de dirigir, adaptou o roteiro de um livro homônimo e produziu o longa, seja responsável pelo olhar carinhoso que o filme lança sobre essas pessoas reais e pela poesia que emana das imagens, “Nomadland” pertence mesmo a Frances McDormand. Despida de maquiagem e vaidade, a atriz se inspira nas pessoas que lhe rodeiam e cria uma personagem real que encontra nas conversas aleatórias com estranhos uma razão para seguir em frente e fugir do vazio.

Saindo um pouco de sua zona de conforto de personagens esquisitos e engraçados (como os que lhe deram o Oscar em “Fargo” e “Três Anúncios para um Crime”), a atriz interpreta Fern de forma comedida e silenciosa, deixando a melancolia tomar conta de seu olhar e dominar a tela nesse filme belo e reflexivo.

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