Era uma vez um sonho

Uma das muitas possibilidades da Netflix de ser indicada ao Oscar, principalmente pelas atuações de Amy Adams e Glenn Close, duas atrizes com várias indicações à estatueta e nenhum prêmio, “Era uma vez um sonho” foi massacrado pela crítica norte-americana. Há um certo exagero no massacre, já que o filme não é a bomba anunciada, ainda que deixe de lado a sutileza e abrace forte o clichê e o melodrama mais barato. Baseado em um best-seller que conta a vida de J.D. Vance, o longa narra o drama desse rapaz que cresce em uma família disfuncional no meio do nada dos Estados Unidos.

Carregando no drama e nas brigas entre o rapaz e a mãe viciada, o filme segue aquela linha “Lua de Cristal” de ser (“Tudo pode ser, se quiser será/ O sonho sempre vem pra quem sonhar…), mostrando que não importa de onde você venha ou o seu contexto familiar, basta um bom exemplo, dedicação e estudo para se vencer na vida. É o mais puro clichê da meritocracia e, talvez, essa seja uma das razões para a produção ter recebido tantas críticas, ainda mais considerando o contexto político atual e o apoio declarado do autor a Donald Trump.

Essa é uma outra questão do filme. É um pouco difícil sentir empatia pelos personagens, mesmo estes sendo bem defendidos pelo elenco. São pessoas quebradas pela violência que as cerca, mas que compram sem muito senso crítico a ideia de que elas são vítimas de si mesmos e não de um sistema opressor que as torna invisíveis perante a sociedade. Seguindo a lógica da abordagem, basta uma avó durona que te afasta dos amigos “losers” e compra uma calculadora para você se sair bem na prova de matemática para que a vida entre nos eixos.

Ron Howard, um desses diretores pau para toda obra, não questiona essa lógica e entrega um filme fluído que vai pulando de briga em briga entre vários flashbacks para mostrar a dinâmica dessa família problemática, mas que se ama. Dono de uma filmografia bem eclética que vai de trabalhos mais sóbrios como “Frost/Nixon” e “Rush: No Limite da Emoção” até produções bem mais comerciais e apelativas, Howard entrega um longa gritado e com cara de novelão, deixando qualquer arroubo estético de lado e deixando que o texto e os atores carreguem o filme.

O resultado é correto, mas completamente esquecível, se revezando entre a exacerbação das atuações e um filme que quer ser emocional, mas que nem sempre consegue, seja porque os diálogos são clichês ou porque a estrutura narrativa que vai e volta no tempo não dá muito espaço para a própria trama causar impacto. Sobra mesmo os atores.

Se Owen Asztalos e Gabriel Basso, que interpretam o protagonista em dois tempos diferentes se esforçam, o próprio roteiro não dá muito espaço para eles se destacarem, graças a um personagem passivo que fica sempre em segundo plano observando as mulheres à sua volta. Já Amy Adams e Glenn Close passam, para o bem e para o mal, por “Era uma vez um sonho” quase como dois furacões. Não há sutileza nas interpretações das duas, mas elas entregam exatamente aquilo que o filme pede delas, caracterizações pesadas e arroubos dramáticos em várias cenas com cara de clipe de Oscar. Com as críticas pesadas ao filme, no entanto, vai ser difícil que uma delas finalmente consiga o sonho de levar a estatueta dourada, mesmo porque o longa, mesmo sendo assistível, não é nada memorável.

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