Sharp Objects

A expectativa é realmente a mãe da decepção, como prova “Sharp Objects“, mais uma badalada minissérie da HBO. Cheia de talentos à frente e atrás das câmeras, a série de oito episódios baseada no primeiro romance da escritora Gillian Flynn (envolvida na própria adaptação) tinha tudo para repetir o sucesso de outras produções da emissora de TV a cabo, mas a pretensão e autoindulgência dos realizadores entregam uma obra que fica no meio do caminho.

Depois do sucesso de “Big Little Lies“, o cineasta canadense Jean-Marc Vallée poderia fazer o que quisesse. Ele escolheu essa mistura de drama psicológico e suspense que tem como mote central um assassinato em uma cidadezinha white trash estadunidense. No livro e na TV, a trama se desenrola em torno de Camille Preaker (Amy Adams), uma jornalista cheia de traumas que volta a Wind Gap obrigada pelo editor para cobrir a história do assassinato de uma garotinha.

Com essa premissa que rendeu um ótimo livro nas mãos, Vallée dirige uma minissérie que nunca encontra o equilíbrio entre o que aflige Camille e a trama de assassinato em si, jogada de lado e quase coadjuvante na série. O resultado é um programa que peca por uma edição que prefere privilegiar inserts de flashbacks e alucinações de Camille do que o desenvolvimento da trama. Além de exagerar no recurso, o cineasta ainda parece estar mais preocupado em justificar as escolhas das músicas da trilha sonora do que contar uma história, principalmente aquela que envolve o mistério do(s) assassinato(s).

A adaptação do livro também não é feliz. Claro que livro e TV são dois meios diferentes e mudanças precisam ser feitas. Mas todas as alterações resultam equivocadas e alguns personagens parecem ganhar mais relevância na série, mas nunca são realmente desenvolvidos (caso do xerife da cidade e do editor chefe de Camille).

No livro, por exemplo, Camille é bem mais presente e tem participação ativa na descoberta da morte da irmã mais nova. Na série, a personagem está preocupada demais em divagar bêbada de um lado pro outro da cidade para tirar conclusões. A própria questão da investigação sobre a morte da irmã mais nova da jornalista se dilui na minissérie, sendo resolvida abruptamente já no final do programa.

A série também minimiza a violência explícita do livro. As adolescentes na TV, por exemplo, aparentam ser bem mais velhas do que as retratadas no livro, talvez para minimizar o choque do público. E o desfecho no livro não abre espaço para ambiguidades, sendo bem mais cruel e realista do que o apresentado pela minissérie.

Não que a série seja de todo ruim. A produção é impecável e o elenco, principalmente Amy Adams, Chris MessinaEliza Scanlen e Elizabeth Perkins, dão conta do recado e mergulham no universo desses personagens que parecem cheirar a bebida e suor. Já Patricia Clarkson se perde em um papel que mais parece um clichê do que uma pessoa de verdade. Sempre escondida pela penumbra e distante das câmeras, a atriz trabalha apenas com uma nota só.

Vendida como uma mistura de “Big Little Lies” (esqueletos no armário da família tradicional estadunidense) e “True Detective” (a investigação de um assassinato em uma cidade do interior), “Sharp Objects” acaba morrendo na praia e não fazendo jus às suas referências. Mas vai ganhar um monte de prêmios.  ¯\_(ツ)_/¯¯

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