Guerra Civil

Alex Garland construiu sua carreira como roteirista e diretor em produções de terror e ficção científica como “Extermínio”, “Sunrise”, “Ex Machina” e “Aniquilação”. Chega a ser estranho então vê-lo comandando um longa com um pé tão ficando na realidade como “Guerra Civil”, que imagina um futuro aterrador em que os Estados Unidos deixam de lado os “inimigos de fora” para lutar contra si próprios.

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A premissa do filme em si já é assustadora e carregada de tensão, principalmente porque o atual momento do mundo não é dos melhores, com a extrema-direita armamentista e nascionalista conquistando mais e mais poder ao redor do globo. Para narrar esse conto de horror com ares premonitórios, o roteirista e diretor escolhe como protagonistas um grupo de jornalistas que, em meio ao caos, pretende viajar pelo país até a capital federal para entrevistar o então presidente.

É por meio do olhar desses personagens que Garland descortina (ou pelo menos pretende refletir sobre) o atual estado alarmante do mundo, em que ideologias políticas viraram motivo de ódio, e o ser humano passa a ser o pior inimigo do outro. A ideia não é nova e já foi usada e abusada pelo cinema, com a tensão e o terror partindo do próprio medo de quem pensa diferente da gente.

O problema de “Guerra Civil” é menos sua premissa calculada ou mesmo a abordagem que privilegia a tensão ao invés do desenvolvimento. A princípio, Alex Garland parece ter muito a dizer, mas o roteirista/diretor parece também ter medo de se aprofundar em seus temas, ficando sempre na superficialidade e em cima do muro. “Guerra Civil”, por exemplo, é menos um filme sobre política, usada apenas como mote catalizador da trama, e mais um exercício de ação para louvar o trabalho dos jornalistas.

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Ainda nesse quesito, “Guerra Civil” fica devendo. A partir de um pequeno grupo de jornalistas composto pela fotógrafa vivida por uma desiludida Kirsten Dunst, um eufórico Wagner Moura (o personagem menos desenvolvido e carismático do grupo, sempre cima do tom), o veterano Stephen McKinley Henderson e a novata Cailee Spaeny (de “Priscilla“), Garland mal reflete realmente sobre a profissão, preferindo construir personagens clichês que mais parecem interessados na ação e na adrenalina do que na busca pela informação e pela verdade.

Em relação às questões políticas, o longa foge delas como o diabo da cruz. Sabemos mais sobre a divisão dos Estados Unidos em territórios pelo material de divulgação da A24 do que pelo filme em si. O caos narrativo impede que o espectador saiba realmente o que está acontecendo, com os jornalistas presos de tiroteio em tiroteio sem que identifiquemos “heróis”, “vilões” ou mesmo por que os grupos estão lutando entre si.

A ideia até poderia ser refletir sobre a falta de sentido da guerra, com ambos os lados certos e errados ao mesmo tempo. Mas, mais uma vez, Garland opta pelo caminho da estetização e explora e mostra a brutalidade e a violência da guerra por meio de sons e silêncios com o propósito apenas de chocar.

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Nesse ponto, “Guerra Civil” é um primor, cheio de cenas de tirar o fôlego e que transformam o longa em uma produção nervosa e urgente (a sequência com a pequena participação de Jesse Plemons é um soco no estômago), ainda que mais preocupada em entreter do que propriamente refletir sobre esse cenário caótico que pouco se explica. Quando chega o final previsível e niilista, Alex Garland deixa claro que, no contexto do filme, a vida humana não vale nada, inclusive para seus jornalistas protagonistas.

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