Frankenstein

Depois de ganhar o Oscar de melhor animação por “Pinóquio”, Guillermo del Toro volta a dirigir mais uma adaptação, também para a Netflix, em “Frankenstein”. O longa, no entanto, é bem menos sucedido do que a versão do boneco de madeira, com o cineasta perdido em seu habitual esmero estético, lembrando muito mais os vazios “A Colina Escarlate” e “O Beco do Pesadelo” do que “O Labirinto do Fauno” ou mesmo “A Forma da Água”.

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Sim, o diretor tenta trazer uma pegada mais filosófica à história do cientista Victor Frankenstein que cria um “monstro” para desafiar a morte, abraçando sem reservas a ciência enquanto deixa de lado questões éticas e morais. Mas, mesmo com 2h30 de duração, o longa pouco desenvolve as motivações do personagem, um Oscar Isaac que nem de longe apresenta a paixão que Kenneth Branagh dava ao papel lá em 1994.

Seguindo o sucesso de “Drácula de Bram Stoker”, de 1992, “Frankenstein de Mary Shelly” não é apenas mais uma adaptação ou reiminaginação do personagem para o cinema ou TV. Dirigido e protagonizado por Kenneth Branagh, o longa é a versão mais fiel ao livro clássico. Massacrado pela crítica na época, o longa foi um fracasso, muitos criticando a direção operística de Branagh e o tom melodramático da trama, com Helena Boham-Carter e Robert De Niro no elenco.

A abordagem de Branagh, no entanto, parece muito mais viva do que a del Toro. O cineasta mexicano, por exemplo, enxuga a parte introdutória que é a base para a obsessão do personagem, tirando grande parte da força da história. O roteiro também insere personagens inexistentes no livro (um péssimo Christoph Waltz) e muda a dinâmica de papéis importantes como a noiva de Frankenstein, Elizabeth, aqui noiva de seu irmão mais noivo (uma Mia Goth em um registro que mais parece saído de uma novela das 18h).

Todas as mudanças podem se encaixar na visão que del Toro tem do personagem, mas parecem fora do lugar em um filme que soa frio e distante. O diretor segue, por exemplo, a linha do exagero estético e apela para um discurso nada sutil. Se Frankenstein percebe seu erro assim que a criatura nasce, na versão de del Toro, o cientista só se arrepende da criação ao sentir inveja da conexão entre ela e Elizabeth.

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Em determinado momento do longa, um personagem verbaliza “Victor, o monstro é você!”. Isso depois de quase duas horas de um filme feito para vilanizar o personagem representado como egocêntrico e invejoso, apostando em uma redundância típica de novela. O resultado é uma produção que quer ser suntuosa, mas nem sequer é visualmente bonita, com exceção de algumas cenas isoladas.

Não que “Frankenstein” seja ruim. Guillermo del Toro já chegou em um estágio da carreira em que é incapaz de entregar uma produção ruim. Mas sua versão da obra clássica de Mary Shelly parece oca, cansada e sem impacto, ainda que tenha méritos. O principal deles é narrar uma parte da história sob a ótica da criatura, trazendo um outro olhar para uma trama já contada e recontada.

 “Frankenstein” acerta ao dar ao “monstro” um senso de ingenuidade e inocência, deixando nos ombros de Jacob Elordi (“Euphoria”, “Saltburn”) toda a carga dramática de um longa que ainda cai na armadilha de cenas escuras e efeitos especiais ruins. Outro problema é a própria ideia de recriar a imagem da criatura (mesmo caso do novo “Nosferatu”), que mais parece um zumbi padrão, com o jovem e sarado ator deixando os músculos à mostra.

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Entre muitos poréns e alguns acertos, “Frankenstein” funciona como passatempo e curiosidade, mostrando que a mitologia criada por Mary Shelly segue viva, como mostram produções recentes, de “Pobres Criaturas” a “Lisa Frankenstein” ao próximo “A Noiva!”, que trará uma releitura noir da trama com Christian Bale e Jessie Buckley no elenco.

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