O Beco do Pesadelo

Mal comparando, o Guillermo Del Toro me lembra um pouco o Tim Burton. Ambos são donos de uma marca visual bem característica, mas sempre entregam, com algumas exceções, um cinema que privilegia a embalagem ao conteúdo. Em “O Beco do Pesadelo” isso fica ainda mais evidente, já que este é o primeiro trabalho do diretor após o Oscar por “A Forma da Água”, ou seja, foi lançado cercado de expectativas.

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Remake de um filme noir da década de 40 (que não vi) baseado em um best-seller, “O Beco do Pesadelo” é aquela típica produção muito bem-feita, com fotografia, direção de arte e figurinos deslumbrantes, tendo ainda como plus um elenco dos deuses com o que melhor Hollywood pode oferecer.

O problema é que falta alma à produção. Del Toro parece engessado à própria fórmula de desbunde visual que criou, com os cenários e a estética tomando conta de tudo. Enquanto o cineasta parece deslumbrado pela encenação do longa, sua trama se desenvolve de maneira quase preguiçosa, sem grandes cenas dramáticas ou acontecimentos realmente marcantes, com um desfile de rostos conhecidos pouco tendo o que fazer (Willem Dafoe, Toni Collette, Rooney Mara, Richard Jenkins, Ron Perlman e David Strathairn mal aparecem ou pouco registram).

Nessa mistura de filme noir com suspense que termina como um conto moral sobre ambição, o protagonismo recai no colo de um Bradley Cooper vivendo um homem misterioso que acaba indo parar em um circo onde aprende alguns truques de ilusão e telepatia. Depois de muito lenga lenga e um salto narrativo, entra em cena Cate Blanchett e uma oportunidade única do rapaz ganhar dinheiro em um golpe arriscado.

A entrada em cena de Blanchett (a melhor coisa da produção) traz ao filme alguma energia e movimenta uma trama que parecia ir para lugar nenhum. Mas apenas a presença da atriz não é suficiente para salvar “O Beco do Pesadelo” de sua própria sina, um filme classudo demais que fica preso à pretensão estética.

Longe do universo dos monstros e dos filmes de horror que fizeram sua fama, Del Toro anda em círculos e se apoia inteiramente na cosmética para dar a “O Beco do Pesadelo” algum sentido. O resultado é realmente deslumbrante, mas distante e gélido, quase sem emoção, algo já visível em “A Forma da Água” e ainda mais evidente no conto de terror macabro “A Colina Escarlate“.

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Em meio a um público cada vez mais viciado em explosões, plot twists e em um espetáculo cinético ininterrupto, é fácil entender por que o longa naufragou nas bilheterias. Menos por ser um “filme para adultos”, falta impacto dramático e narrativo à produção. Talvez Del Toro ainda não esteja preparado para migrar de seu habitat natural de monstros e criaturas fantásticas (aqui apenas sugeridas) para produções mais clássicas como essa.

De qualquer forma, “O Beco do Pesadelo” diverte e vale por suas melhores qualidades, da encenação luxuosa a uma Cate Blanchett assustadoramente deslumbrante.

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