Benedetta

Se existe alguém capaz de fazer um filme sobre freiras lésbicas (além Pedro Almodóvar), esse alguém é Paul Verhoeven. Com a sua habitual mistura de sarcasmo com seriedade, o cineasta holandês é um dos poucos nomes que poderia mostrar um absurdo atrás do outro em um filme inspirado em uma história real sem se levar a sério ao mesmo tempo em que não foge da controvérsia. 

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Em “Benedetta”, a trama gira em torno da freira que dá nome ao longa, uma mulher dedicada ao senhor e que cresceu em um convento ciente de que, aos olhos da Igreja, nascer mulher já é um pecado. Temente a Deus, a freira passa a ter um comportamento estranho depois que uma noviça (uma garota que era violentada pelo pai e irmãos) chega ao convento. Tendo visões quase sexuais com Jesus e apresentando tendências lésbicas, Benedetta começa a despertar medo e inveja nas outras freiras, inclusive na Madre Superiora (a ótima Charlotte Rampling), até virar uma espécie de santa ao aparecer com as chagas de Cristo. 

Sem medo de puritanismo, Paul Verhoeven migrou do cinema holandês para Hollywood nos anos 1980 e construiu uma carreira bem eclética, sendo amado e odiado na mesma proporção por não desviar sua câmera da violência e do sexo. Dividido entre produções de ficção científica (“Robocop”, “O Vingador do Futuro”, “O Homem Sem Sombras”) e thrillers eróticos (“Instinto Selvagem” e “Showgirls”), o diretor viveu uma fase de altos e baixos até abandonar Hollywood e ser abraçado novamente pela crítica ao voltar às suas origens no cinema europeu. 

É justamente nessa nova fase que Verhoeven lançou seus melhores trabalhos, do eficiente e pouco visto “A Espiã” (que revelou ao mundo Carice van Houten, que fez fama vivendo a bruxa Melisandre na série “Game of Thrones”) ao elogiado e controverso “Elle” (que rendeu a única indicação ao Oscar à deusa francesa Isabelle Huppert). 

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Benedetta” segue essa boa fase do cineasta misturando temas recorrentes ao cinema de Verhoeven, do desejo sexual à religião e fé. Sem pudor em chocar, o cineasta cria uma encenação polêmica e cheia de absurdos de deixar qualquer cristão carola de cabelo em pé, nunca deixando muito claro as verdadeiras intenções da freira pecadora, se ela é uma blasfêmia ou realmente acredita em tudo que diz. 

Com a ótima Virginie Efira no centro desse palco de sexo, histeria e violência, “Benedetta” atira para todos os lados, do drama ao farsesco, com Verhoeven totalmente no controle de um filme que poderia dar muito errado ao se dividir entre o thriller erótico, o drama religioso e uma produção de época. Por meio de imagens controversas e icônicas, o diretor reflete sobre a linha tênue entre fé e loucura, questionando o grande poder, para o bem e para o mal, que a religião tem sob as pessoas.  

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Para quem já foi massacrado pela crítica e pelo público por filmes como “Showgirls” (hoje um cult) e “Tropas Estelares”, Paul Verhoeven deu uma bela volta por cima. “Benedetta” é mais uma prova de que o diretor ainda tem muito talento de sobra para provocar. 

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