O Diabo Veste Prada 2

Mais do que nostalgia, existe uma certa melancolia que cerca “O Diabo Veste Prada 2”, um reconhecimento de que o mundo, no geral, piorou, que perpassa todo o longa. E, para uma continuação que ninguém realmente pediu, isso já é um grande feito, mesmo que, em alguns aspectos, o roteiro pareça apenas uma mera cópia do original, ainda que o foco mude um pouco.

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O Diabo Veste Prada 2” é, por exemplo, bem mais sobre o universo da mídia e do jornalismo do que sobre moda em si. O mundo fashion serve aqui apenas de contexto para uma trama sobre a decadência dos veículos de comunicação em um mundo que prioriza dinheiro e lucro à informação e às notícias. Em um cenário onde tudo é entretenimento e conteúdo, nada parece mais ser relevante.

É nessa chave que o longa gira, mesmo que bata nas mesmas teclas do original, seja no sentido de ritmo e mesmo no desenvolvimento da trama. Se no primeiro, a vilã era a chefe carrasca e autoritária que quer apenas se salvar, aqui os vilões são os CEOs gananciosos, as redes sociais e, claro, a IA. Parece um caminho um tanto óbvio, mas é o mais acertado e faz todo o sentido para que a produção se destaque e se mantenha relevante diante de um mar de concorrentes.

Dito isso, “O Diabo Veste Prada 2” é cheio de defeitos: dos mais bobos, como um novo romance que nada agrega à trajetória da protagonista e mesmo do filme, à repetição de um desfecho tão ingênuo que fica ainda mais destoante diante de uma realidade para lá de crua e cruel. Falta cinismo ao longa, em especial na forma como humaniza Miranda ao ponto de transformá-la em uma bobona.

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Talentosa como é, Meryl Streep faz o que pode para manter a dignidade de uma personagem-ícone que volta sem a mesma força. É difícil, por exemplo, imaginar a atriz recebendo outra indicação ao Oscar por um papel que já lhe rendeu uma indicação ao prêmio antes (especialmente porque a Academia raramente faz isso: os últimos foram Sylvester Stallone e Cate Blanchett).

Se no original de 2006 todo o elenco circulava ao redor de Meryl Streep, aqui cada um segue seu próprio caminho. Anne Hathaway parece a que menos mudou em relação ao original, inclusive na visão meio pastel do mundo. Stanley Tucci segue passeando bem entre as duas protagonistas, enquanto Emily Blunt tem o papel mais ingrato. O resto do elenco mal registra, funcionando mais como coadjuvantes de luxo (Kenneth Branagh, Lucy Liu e Justin Theroux, este último, para mim, já dono do Framboesa de Ouro de pior ator coadjuvante).

Em relação à questão estética, a produção parece espelhar bem como o mundo está mais feio, em especial um cinema cada vez mais genérico e sem identidade. Se David Frankel não era um autor lá em 2006, hoje ele parece ter assumido de vez ser apenas um diretor de encomenda. Ele até entrega um filme “bem feitinho”, mas em que nada salta aos olhos, da cansada fotografia de cores lavadas que o cinema insiste em meter goela abaixo do espectador até os próprios figurinos, que parecem estar no filme apenas para vender, não realmente deixar uma marca (mais uma vez, é difícil, imaginar o filme recebendo outra indicação ao Oscar na categoria, prêmio que perdeu para “Maria Antonieta”).

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Mas, no frigir dos ovos, mesmo com todos os defeitos, “O Diabo Veste Prada 2” consegue ser envolvente e pelo menos fugir da alcunha de “legacy sequel” feita apenas para enganar trouxa e ganhar dinheiro.

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