The Handmaid’s Tale

À primeira vista, a grande vilã de “The Handmaid’s Tale” é a mistura de religião, fanatismo e política, três coisas que se tornam explosivas quando juntas. Mas a série vai além de simplesmente apontar essa combinação óbvia como algo que sempre dá errado.

A grande vilã de “The Handmaid’s Tale” é, na verdade, a maternidade, essa “dádiva”, “milagre” ou “destino biológico”, como a série mesmo aponta, que define, ainda hoje, o que é ser mulher.

A partir do momento que essa adaptação da obra de homônima de Margaret Atwood deixa claro o quanto as mulheres são moldadas, para o bem e para o mal, pelo conceito de maternidade, a série vira uma alegoria cruel e nada sutil de como as “fêmeas” são tratadas por nossa sociedade.

Só essa perspectiva certeira já torna “The Handmaid’s Tale” uma série corajosa, afinal, em tempos cada vez mais extremistas, essa adaptação bate sempre na tecla de que somos mesmo uma sociedade, no geral, muito fudida ao, quase sempre, recorrer a padrões morais datados e à própria religião para tentar “nos livrar de todo mal, amém!”.

O que vemos então ao longo dos dez capítulos dessa primeira temporada são cenas apavorantes que apresentam uma sociedade à beira de um abismo de hipocrisia, característica básica de quase todas as religiões, abusos, submissão, mortes e estupros consentidos, batizados de “cerimônia”, tudo em nome de “Deus” e da “família tradicional”.

Em um futuro não tão distante, o mundo está ficando estéril e nascem cada vez menos crianças. Um culto religioso tira proveito disso para tomar o poder e criar uma nova sociedade que tem como lema salvar o mundo (assassinando homossexuais, por exemplo, “traidores de gênero”).

Nesse novo mundo purificado, as mulheres são as principais vítimas e precisam cumprir o seu “destino biológico”: ter filhos. As “fêmeas” férteis são proibidas de ler, trabalhar e viver, sendo escravizadas para gerarem crianças. O destino das estéreis depende, claro, de sua condição financeira e posição de poder: ou elas criam as crianças geradas pelas férteis, ou viram marthas, tipo governantas, ou são simplesmente mortas.

Para trazer essa história de horror para mais perto do público, a série cola em uma personagem, uma aia, como são chamadas as mulheres férteis. É pelos olhos de Offred (ou Jule, seu nome verdadeiro) que somos apresentados a essa realidade distorcida em que o amor é erradicado e pessoas são mortas apenas por discordarem dessa nova ordem.

Grande parte do sucesso da série recai então sobre os ombros de Elisabeth Moss (“Mad Men”, “Top of the Lake”), que conduz a história com seu rosto expressivo e interpreta Offred com todo o carisma necessário para que torçamos por ela diante desse mundo doente.

Mas “The Handmaid’s Tale” não é apenas uma interpretação. A série é todo um conjunto de elementos em perfeita sintonia que criam uma ambientação verossímil e que passa longe da caricatura, defeito comum de filmes/séries sobre futuros distópicos.

Bem escrita, lindamente dirigida e fotografada, “The Handmaid’s Tale” mistura elementos de “Filhos da Esperança” (que também lida com a infertilidade do mundo) e “Não Me Abandone Jamais” (que mostra a realidade de pessoas que vivem unicamente para cumprir um papel em uma sociedade doente) para ser uma ficção científica plausível e que grita urgência.

A série deixa claro, ao encenar a trama em uma realidade bem parecida com a nossa, que nós nunca estivemos tão próximos de um futuro distópico. E ela mostra que ele pode ser realmente assustador.

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