Years and Years

O que nos amedronta? De acordo com o cinema e as séries, um futuro distópico é o nosso maior medo. Mas e se houvesse um futuro bem mais assustador à nossa frente sem, necessariamente, precisar vivermos uma distopia? Essa é a pergunta central que move a narrativa de “Years and Years”, minissérie de seis episódios da BBC em parceria com a HBO. A resposta que o programa entrega ao público é plausível e aterradora.

No futuro imaginado pela minissérie, não é a religião ou a ditadura que amedrontam. O que provoca medo é o reflexo que a série mostra a partir de nossa atual realidade. E os vilões somos nós mesmos, que permitimos que a sociedade tenha chegado a um ponto tão pessimista e que parece não ter volta. Avanços tecnológicos, liberalismo econômico desenfreado, a questão cada vez mais crítica dos refugiados, as mudanças climáticas ignoradas pelos governos e a falência de um sistema econômico sustentado por desigualdades sociais e extremamente interligado ao nosso modo de vida são fantasmas reais que transformam o mundo e a vida de pessoas comuns ao longo da minissérie.

Esse é um dos principais acertos de “Years and Years”. Todas as mudanças são vistas pelos olhos de uma família comum de classe média britânica. A abordagem não é nova (séries como “The Americans” ou mesmo a distópica “The Handmaid’s Tale” discutem um todo sob a ótica de uma pequena parte), mas o programa faz isso com propriedade e de forma inovadora. É essa família que precisa enfrentar essas transformações, seja porque elas estão todos os dias nos noticiários das TVs (“Saudades da época quando os noticiários eram chatos e não precisávamos acompanhá-los”, lamenta um dos membros da família) ou porque elas se refletem em suas próprias vidas.

A crise econômica afeta o casal bem-sucedido que perde a casa, os empregos (o analista financeiro deixa o orgulho de lado e vira entregador de encomendas para um startup à la Uber Eats) e todas as economias. Os avanços tecnológicos também afetam a vida desse casal, cuja filha usa filtros de aplicativos para se esconder da sociedade e sonha em se tornar uma transumana (se livrar do seu próprio corpo e ser transferida para a nuvem). O gay padrãozinho, casado e todo certinho vê sua vida virar pelo avesso ao se apaixonar por um refugiado que pode morrer se for deportado para seu país de origem onde a homofobia é legalizada. Uma das irmãs da família é cadeirante, mãe solteira de dois filhos e só se mete com “boy lixo” (como o pai solteiro que transa nas horas vagas com um robô). A outra irmã é ativista e é contaminada por radioatividade ao presenciar uma explosão atômica na China, cortesia de um Donald Trump às vésperas de ser reeleito.

Costurando todas as tramas dessa família, somos apresentados à nova salvação da política britânica, uma celebridade (vivida pela maravilhosa Emma Thompson) que ninguém sabe muito bem de onde veio, mas que começa a galgar posições e ganhar mais poder. Com uma ou duas exceções, Vivienne Rook nos é apresentada sempre via o olhar da mídia. A primeira cena da minissérie, por exemplo, mostra todos os membros da família reunidos (cada um em sua casa, mas conectados via um dispositivo tipo um Apple HomePod) assistindo a um programa de debates em que Vivienne dispara comentários nada politicamente corretos. Ela nada mais é do que uma versão feminina e mais inteligente de Donald Trump ou Jair Bolsonaro, politicamente inapta e disparando absurdos e inverdades, proclamando uma nova política que, além de velha, é ineficiente e disposta a dar continuidade às desigualdades sociais de sempre.

“Years and Years”começa em 2019 e segue avançando no tempo até 2034. A edição é então um dos grandes méritos da minissérie. Cada pulo temporal, sempre mostrado por meio de uma sequência de cenas acompanhadas por uma trilha sonora que mais parece uma apunhalada no peito, avança a narrativa e dá piscadelas ao espectador deixando claro que esse futuro profetizado já está acontecendo agora.

O descontrole das fake news, bebês que são curados ainda no ventre das mães, diagnósticos que podem ser feitos via aplicativos, telefones incorporados ao corpo humano e um grande sistema de informações que pisa em cima do conceito de privacidade são elementos presentes ao longo dos seis episódios de “Years and Years”. Diferente de “Black Mirror”, no entanto, eles não são o foco da narrativa, que lembra ao público a todo o instante que o propósito da série é mostrar tudo isso a partir do ponto de vista de uma família ordinária e nada especial, como uma das próprias personagens afirma.

Esse é outro acerto da minissérie criada e produzida por Russell T. Davies (roteirista de séries como “Dr. Who”, “Queer as a Folk” e da ótima minissérie “A Very English Scandal”). Apesar de esteticamente desafiadora, “Years and Years” vai além da embalagem bonita ao criar personagens criveis e envolventes e desenvolver suas histórias com empatia e verdade. Por trás de toda tecnologia e do contexto econômico, político e social vislumbrado pelo programa, existem pessoas que são, acima de tudo, humanas e sofrem, erram, se arrependem, julgam, amam, choram, se abraçam, brigam e comemoram juntos os momentos de alegria, cada vez mais raros em um mundo despedaçado por políticos que criam suas próprias verdades e por uma política cada vez mais excludente.

O resultado é uma minissérie tocante e impactante que tenta, ainda que de forma ingênua e “hollywoodiana”, olhar para o futuro com um pouco de otimismo em sua conclusão. Nós, do lado de cá da tela, acompanhamos tudo sabendo que não somos muito diferentes desses personagens que ainda mantêm a esperança mesmo cientes de terem culpa por ignorar todos os sinais de que o futuro está indo na direção errada.

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