Edward Norton: 50 anos em 5 filmes

Edward Norton surgiu praticamente como um Deus na metade dos anos 1990, mais precisamente em 1996, quando apareceu em três filmes já trabalhando com diretores como Woody Allen e Milos Formam e roubando os holofotes de astros como Richard Gere. De completo desconhecido a um dos grandes atores da sua geração, ele emprestou seu talento para grandes cineastas (David Fincher, Spike Lee, Wes Anderson e Alejandro G. Iñárritu) e até se arriscou atrás das câmeras (na comédia romântica “Tenha Fé” e no ainda inédito “Motherless Brooklyn”).

Em algum ponto dos anos 2000, ele ficou mais conhecido por seu temperamento difícil do que propriamente por seus filmes, o que talvez explique a filmografia pequena com pouco mais de 40 trabalhos, mesmo com quase 25 anos de carreira, algo raro em se tratando do ritmo hollywoodiano.

O sucesso do início da carreira também não durou. Mesmo fazendo parte de grandes projetos, Norton foi perdendo a relevância e fez várias produções que passaram batidas (“A Cartada Final”, “Força Policial”, “Irmãos de Sangue”, “Homens em Fúria”, “Beleza Oculta”, entre outros). Ainda assim, Norton chega aos 50 anos como um dos maiores talentos da atualidade, tendo voltado a despertar a atenção da mídia em longas de sucesso como “O Grande Hotel Budapeste” e “Birdman”.

As Duas Faces de um Crime (1996) – O filme é um suspense bem típico dos anos 1990, imponente, com uma edição menos frenética do que aquela que a MTV já propagava na época e uma reviravolta no final. Dirigido com classe por Gregory Hoblit, o filme não traz nada de novo e segue a fórmula de filmes de tribunal com louvor. Mas Hoblit acerta no elenco (Richard Gere, Laura Linney, Alfre Woodard e Frances McDormand) e a história é envolvente o suficiente para prender a atenção do espectador. Edward Norton interpreta um coroinha ingênuo e gago suspeito de matar violentamente um arcebispo. Grande parte do filme gira em torno da relação de Gere, advogado de defesa do coroinha, e de Norton, e da investigação do crime. O longa perdeu um pouco de relevância com o tempo, mas tem como maior mérito ter revelado o talento de Norton, que foi indicado ao seu primeiro Oscar pelo filme.

A Outra História Americana (1998) – Edward Norton recebeu mais uma indicação ao Oscar por seu retrato brutal de um neonazista assassino em A Outra História Americana, filme poderoso e polêmico de Tony Kaye, que nunca mais dirigiu nada relevante. Indo e vindo no tempo e se alternando entre uma fotografia colorida e em p&b, Tony mostra a ascensão e queda de um neonazista furioso com a decadência norte-americana. O personagem de Norton mata dois negros (a cena da calçada é uma das mais violentas que o cinema já mostrou) e come o pão que o diabo amassou na prisão até se redimir e ver seu irmão mais novo seguir os seus passos. Norton cria um personagem ao mesmo tempo assustador e carismático (a cena do confronto em família durante um jantar é assustadora), e o filme segue um caminho trágico e cheio de desesperança. Um dos longas mais impactantes da década de 1990 e que, hoje, em tempos de polarização e ódio, infelizmente, soa atual.

Clube da Luta (1999) – De longe o melhor trabalho do meu diretor preferido (David Fincher – até seus filmes “menores” me impressionam, como “Vidas em Jogo” e “O Quarto do Pânico), esse é o longa mais subversivo, doentio, violento e genial que eu já vi. Além de tudo isso, sua produção é tecnicamente impecável e traz três interpretações icônicas de Edward Norton, Brad Pitt e Helena Boham-Carter. Cheio de diálogos inteligentes e com uma edição bem esperta, o filme é um exercício audiovisual corajoso que nunca tem medo de expor seu conceito: a sociedade moderna é vazia e doente. 20 anos depois do seu lançamento e “Clube da Luta” continua atual e bem pertinente. Quantos filmes conseguem isso?

A Última Noite (2002) – O filme narra a última noite do personagem de Norton antes de ir para a prisão por sete anos por tráfico de drogas. Também usando recurso de flashbacks, assim como “A Outra História Americana”, a produção de Spike Lee mostra a despedida do personagem principal de seu pai, amigos e namorada. Um dos melhores trabalhos de Lee, que quando quer acerta em cheio, o filme é melancólico e impactante e um dos primeiros a abordar a tragédia da queda das Torres Gêmeas, quase personagens do longa. Lee filma com cuidado, usando seu esmero estético e marca registrada (uma câmera estática que gruda em personagens em movimento) e abrindo espaço para todo o elenco brilhar em várias cenas memoráveis (Barry Peper, Philip Seymour Hoffman, Anna Paquin, Rosário Dawson, Brian Cox). Edward Norton foi solenemente ignorado por todos os prêmios, mas entrega uma de suas melhores atuações. Seu monólogo de ódio vomitado na frente de um espelho é de uma sinceridade alarmante. Já o filme, é quase a alegoria da desolação que marcou os EUA no início dos anos 2000.

O Despertar de uma Paixão (2006) – Naomi Watts é uma mulher aparentemente à frente do seu tempo que se casa com o almofadinha Edward Norton por um capricho e se vê entediada na China ao lado dele. Depois de traí-lo, ela é punida pelo marido e acaba em uma vila que está passando por uma epidemia de cólera no interior do  país. Watts e Norton estão em suas melhores formas como um casal que acaba se apaixonando graças à prisão das convenções sociais. Além das ótimas interpretações dos dois atores, o longa se beneficia pelo que há de melhor nos dramas de época: encenação e textos polidos, trilha sonora, direção de arte, fotografia e figurinos de encher os olhos e ouvidos. Infelizmente, o filme teve um lançamento discreto e foi bem pouco visto. O ator foi indicado ao Spirit Awards por sua atuação.

 

 

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