King Richard: Criando Campeãs

King Richard: Criando Campeãs” é uma verdadeira ode à meritocracia. O novo longa de Will Smith, que pode render o primeiro Oscar ao ator, narra a história real do controverso Rick Macci, que planejou a carreira e a trajetória de duas de suas filhas (Venus e Serena Williams) para que elas se tornassem as maiores tenistas do mundo, isso antes mesmo delas nascerem.

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O filme segue bem a cartilha das produções que apelam para a emoção e é construído quase como uma aula de coaching ao explorar a história de perseverança das duas tenistas (sob as rédeas do pai), o modelo ideal do sonho americano em que basta você planejar o seu sucesso.

O problema é que o longa passa por cima ou apenas pincela de forma superficial vários dos pontos questionáveis dessa história. Primeiro, a produção jamais acha problemático o fato do protagonista explicitar em um momento que decidiu ter mais duas filhas já com a intenção de torná-las jogadoras de sucesso. “King Richard” também retrata as acusações de abuso e quase exploração infantil das garotas, com treinamentos excessivos e em locais insalubres, como cuidado para que as filhas não se misturassem com as gangues do bairro (em uma visão bem pejorativa da comunidade negra) ou, pior, apenas inveja da vizinhança.

Ainda que o filme explore a aversão de King Richard aos pais de outros jovens potenciais jogadores, o longa segue romantizando uma relação quase abusiva do dele (disfarçada de cuidado) em relação às filhas, que, a julgar pelo longa, nunca tiveram poder de escolha sobre suas próprias vidas.  

O fato de King Richard, por exemplo, ter adiado a carreira das jovens com a intenção de elas terem uma infância/adolescência (algo aparentemente louvável, inclusive) antes de se tornarem profissionais logo cai por terra quando a decisão se mostra acertada e é premiada com contratos milionários. Todo o cuidado e proteção termina como uma questão de negócios e mais dinheiro. 

Claro que em um mundo em que crianças são incentivadas por pais frustrados a cada vez mais cedo desenvolverem competências e habilidades para se prepararem para o mercado de trabalho (Masterchef Kids e The Voice Kids pulalam por aí), “King Richard: Criando Campeãs” soa como um verdadeiro exemplo de êxito e mérito, até porque o longa retrata bem a questão racial envolvendo duas meninas negras que vencem em um esporte essencialmente branco. 

Mas, à parte essa leitura “comunista”, “King Richard: Criando Campeãs” é um bom filme, bem construído e filmado. Mesmo não questionando seus personagens, o diretor Reinaldo Marcus Green consegue imprimir um ritmo fluido a um longa de quase 2h20 e se aproveitar do carisma do elenco, em especial Aunjanue Ellis, que interpreta a mãe das garotas (um contraponto ao personagem um tanto arrogante e irritante de Will Smith), e as próprias atrizes que vivem Venus e Serena. 

Como um bom filme esportivo, “King Richard: Criando Campeãs” também não foge à fórmula desse gênero que costuma mostrar que a perseverança é o único caminho para o sucesso. O longa equilibra bem a trama, terminando com a velha lição de que nem sempre uma derrota significa o fim da linha. Ainda que compactue com uma visão meio torta do mundo em que o dinheiro, a fama e o sucesso são as verdadeiras recompensas, “King Richard: Criando Campeãs” funciona como um bom entretenimento.

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