Amor, Sublime Amor

De cara, o mundo não precisava de um remake de “Amor, Sublime Amor”, musical clássico e oscarizado lançado há 60 anos. Ainda assim, não dá para negar que Steven Spielberg, dirigindo o seu primeiro musical, entrega um produto competente e bem filmado, mesmo que várias de suas apostas não funcionem na tela.

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A primeira delas é tentar modernizar a trama do filme, abarcando algumas questões que dizem mais respeito ao mundo de hoje do que ao da época em que a trama efetivamente se passa. Maria, por exemplo, tem uma postura menos passiva em relação aos homens, e o filme explora um pouco melhor a rixa entre os porto-riquenhos e os nativos norte-americanos, refletindo uma discussão bem contemporânea sobre o preconceito em relação aos imigrantes.

Nem tudo, no entanto, parece fazer sentido, como a questão da exploração imobiliária que está destruindo o bairro onde vivem as gangues rivais Jets e Sharks, algo que serve mais como um mote visual que percorre toda a direção de arte do que propriamente influencia na história de amor entre Maria e Tony, que não sofre muita diferença entre a nova e a versão original.

Visualmente muito bem feito e filmado, com uma ótima fotografia de Janusz Kaminski, colaborador habitual de Steven Spielberg, figurinos coloridos e uma direção de arte eficiente, o novo “Amor, Sublime Amor”, no entanto, não consegue ter o mesmo impacto estético do original de 1961, que utilizava melhor os cenários descaradamente teatrais e a fotografia mais criativa, ainda que tecnicamente mais limitada do que a da produção atual (a cena do encontro entre Tony e Maria no baile, por exemplo, nem de longe ganha o destaque que ela tem no filme de Jerome Robbins e Robert Wise).

Um outro incômodo que a nova produção me deixou é justamente essa pegada mais realista que perpassa toda a direção de arte e as próprias coreografias, bem mais ágeis e menos elegantes do que as da versão original, chegando até à violência gráfica que antes era apenas sugerida. A edição bem mais picotada é outro reflexo de contemporaneidade do longa, mas tira um pouco o charme das coreografias contínuas do filme de 1961.

Apesar das reclamações, “Amor, Sublime Amor” é um bom filme que, no fundo, segue exatamente a mesma proposta do original que adaptava musicalmente para a Nova York dos anos 1960 o drama shakeaspereano de Romeu e Julieta. Da ingenuidade do amor entre Tony e Maria (os insossos Ansel Elgort e Rachel Zegler) até a própria falta de química entre os dois, que mal trocam algumas palavras e já se amam profundamente, a proposta entre as duas produções é a mesma.

Com direito a pelo menos duas grandes interpretações dos ótimos Ariana DeBose (que vive Anita) e Mike Faist (Riff), o filme se sai bem para uma primeira experiência de Spielberg em musicais, ainda mais em algo que poderia ser um grande desastre.

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