Aftersun, Babilônia e Os Fabelmans

O cinema ama se reverenciar. Não são poucos os filmes que homenageam o próprio cinema, seja contando um pouco sobre os bastidores da indústria ou a história da sétima arte, seja explorando imagens como reflexos de memória e nostalgia. Na onda recente de autobiografias de cineastas e de produções especificamente sobre a indústria cinematográfica, como “Babilônia”, nenhum filme é tão poderoso, no entanto, quanto “Aftersun”.

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Se Steven Spielberg segue o caminho das autobiografias em “Os Fabelmans” e Damien Chazelle explora a transição do cinema mudo para o sonoro em “Babilônia”, a cineasta estreante Charlotte Wells vai buscar na própria memória a inspiração para “Aftersun”, uma carta de amor ao pai da diretora (o ótimo e tocante Paul Mescal, indicado ao Oscar de melhor ator) e ao poder das imagens.

Com um fiapo de trama, a cineasta reconstrói uma férias de infância com o pai em um hotel na Turquia. Entrecortada por imagens filmadas pelo pai e por ela própria (vivida pela ótima Frankie Corio) em uma câmera caseira, a diretora descortina a relação entre os dois em meio a cenas banais ou momentos de entretenimento ou conflito. Ancorada pela tocante interpretação de Paul Mescal, “Aftersun” é cinema puro.

Steven Spielberg segue um caminho mais óbvio em “Os Fabelmans”. De forma um tanto didática, ele começa o filme colocando o ator que interpreta seu pai (Paul Dano) explicando para ele e para o público como funciona a ilusão do cinema. É um começo simpático, mas não muito promissor para um autobiografia do diretor mais conhecido e bem-sucedido (pelo menos em termos financeiros) do cinema.

Após essa introdução que mostra como Spielberg descobriu a mágica do cinema, o diretor usa “Os Fabelmans” para se revezar entre uma ode a sétima arte e uma homenagem à própria família, com destaque especial para a influência que a mãe dele (vivida com gosto por Michelle Williams) exerceu em sua vida e na decisão dele seguir uma carreira no cinema.

Essa divisão parece afetar um tanto a dinâmica do longa, que resulta em um filme bem feito, ora tocante, ora divertido, mas bem aquém de “Roma” ou “Dor & Glória”, autobiografias recentes de cineastas renomados, Alfonso Cuáron e Pedro Almódovar, respectivamente. Se em “Bardo”, outra autobiografia de um diretor renomado, Alejandro González Iñárritu perde a mão e exagera na pretensão, em “Os Fabelmans”, Spielberg transforma os dramas de sua família em uma bela sessão da arte, despretensiosa e esquecível.

Ambição é o que não falta, no entanto, a “Babilônia”, novo trabalho de Damien Chazelle. Se no anterior “O Primeiro Homem” ele apostava no intimismo, aqui, o cineasta prefere o excesso e o épico para encenar a transição do cinema mudo para o sonoro. É um trabalho ousado e vibrante (às vezes vibrante demais), mas o que o filme tem de fibra falta de foco.

Estilhaçada em desnecessárias três horas, a trama do filme conta sua história a partir da perspectiva de três personagens. Temos a garota (Margot Robbie) que quer se transformar em estrela, mas sucumbe diante da fama; o latino (Diego Calva) que quer uma chance de trabalhar no cinema; e o galã (Brad Pitt) que pode perder a fama por causa do avanço tecnológico que muda o cenário em Hollywood.

O problema é que Chazelle parece não saber o que fazer com esses personagens ou com o próprio filme, deixando que o excesso e o exagero passem por cima da coerência. Em meio a orgias e grandes cenários, muitas vezes o longa parece uma bagunça, com algumas cenas com uma encenação quase mambembe em que figurantes no fundo correm feito baratas tontas de um lado para o outro. O cineasta ainda se perde ao apostar em cenas escatológicas completamente gratuitas.

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Ainda que seja um grande diretor, Chazelle não é nenhum Baz Lurhmann (que pelo menos sabe filmar excesso como ninguém) e parece perdido não apenas em suas próprias intenções, mas na própria edição e conclusão de sua trama. Não fica muito claro se ele quer homenagear ou criticar o cinema, ainda que, em alguns momentos, ele deixe explícito seu amor pela sétima arte, mesmo que de forma redundante e simplista (como na montagem final que cola imagens de vários clássicos do cinema).

Sim, o cinema é algo poderoso, como “Aftersun” deixa muito claro.

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