Passado, presente e futuro em Terminator

Um andarilho australiano, missões impossíveis e um parque de dinossauros. Até Rocky vai ganhar um spin off esse ano. Dessa leva de franquias ressuscitadas em 2015, a que parece mais forçada é a do exterminador de Arnold Schwarzenegger, mesmo porque a série é bem sofrida e comprova que Hollywood não tem o menor respeito pelo próprio patrimônio.

Depois de dois filmes emblemáticos dirigidos por James Cameron, a série ganhou um terceiro capítulo mambembe que cuspiu e mijou sem cerimônia na mitologia estabelecida pelos clássicos episódios anteriores. Alguns anos depois, ainda ganhou mais um episódio dispensável que praticamente enterrou a franquia, que migrou para a TV em um seriado de duas temporadas que pouca gente se deu ao trabalho de ver (“Terminator: The Sarah Conner Chronicles”).

Mas, em Hollywood, nada morre, tudo se transforma. Na falta do que fazer, a série ganha agora um reboot que promete ~arrasar~, colocando novamente Arnold Schwarzenegger na pele do exterminador e com Alan Taylor (de “Thor” e episódios de “Mad Men” e “Game of Thrones”) na direção da palhaçada.

Pelo trailer, O Exterminador do Futuro: Gênesis parece uma tragédia anunciada feita para atrapalhar, mais uma vez, a já confusa cronologia da série. Se tudo der certo, o filme pode colocar uma pá de cal de vez (ou pelo menos pelos próximos anos) na trama tão bem construída por James Cameron.

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O Exterminador do Futuro (1984)

Inspirado na clássica história dos X-Men sobre viagens no tempo (“Dias de um Futuro Esquecido”), James Cameron criou a história de um robô exterminador que vem de um futuro dominado por máquinas para matar a mãe do líder da resistência que nem nasceu ainda. É óbvio que, como toda história que envolve viagens no tempo, o longa tem lá seus problemas de coerência, mas Cameron não liga muito para isso e cria um dos filmes que estabeleceu a cartilha do gênero de ação dos anos 1980.

Ao misturar ficção científica, suspense, ação e tiroteios, o cineasta fez um clássico que funciona muito bem até hoje. Mesmo que os efeitos especiais, a maquiagem e a trilha sonora tocada em sintetizador de igreja tenham envelhecido pacas, a narrativa é impecável. A imagem de Arnold Schwarzenegger de óculos escuros e arma na mão virou ícone do cinema moderno e alçou a carreia do moço às alturas.

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O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991)

A premissa é a mesma do primeiro, assim como a estrutura narrativa dessa continuação que apenas anaboliza o conceito do original. De qualquer modo, James Cameron orquestra as cenas de perseguição, tiroteio e explosões com precisão e de forma acelerada sem deixá-las incompreensíveis (mal do cinema videoclíptico atual). Cameron redefine assim mais uma vez o gênero e assume o pódio de melhor diretor de ação (o ótimo “True Lies” comprovou isso depois). De quebra, o cineasta revoluciona os efeitos especiais ao integrá-los muito bem na história e coloca as imagens digitais no mapa das grandes produções (ampliando o uso ainda tímido do CGI de seu filme anterior, “O Segredo do Abismo”).

Ainda que o filme traga um humor apelativo dispensável (que virou recurso obrigatório no gênero a partir de “Duro de Matar”) e o uso de dublês fique evidente em algumas cenas, Cameron compensa essas falhas com uma produção bem caprichada (até ao Oscar de melhor fotografia o filme foi indicado) e uma trama muito bem desenhada. Já grande astro do momento, Schwarzenegger assume o papel de herói e divide os loiros nas impressionantes cenas de ação com uma marombada Linda Hamilton (ótima mais uma vez no papel da mãe de John Connor).

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O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas (2003)

Doze anos depois de moldar um gênero e mudar o cinema, eis que James Cameron abandona o barco da série que ajudou a criar. Feliz dele, porque o resultado é lastimável. O filme é uma grande desculpa para colocar Arnold Schwarzenegger mais uma vez na pele no exterminador T-800 e ganhar grana.

A premissa é a mesmíssima dos anteriores, com uma mudança sem graça aqui e ali (nada, por exemplo, justifica o exterminador do mal enviado do futuro ser uma mulher; Sarah Connor/Linda Hamilton é ejetada da história; Nick Stahl nem de longe tem o mesmo apelo de Edward Furlong; e Claire Danes só grita a produção inteira).

Para piorar tudo, a produção é bem kistch e as cenas de ação são longas e mal conduzidas por um inexperiente Jonathan Mostow (a perseguição de carros é pura destruição preguiçosa). Os efeitos também não trazem nada de novo em relação à produção de 1991, isso mais de uma década depois. O resultado é melancólico, no pior sentido do termo, e o filme é quase um pastiche, transformando-se em um grande espetáculo vazio e sem a conexão emocional dos anteriores.

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O Exterminador do Futuro: A Salvação (2009)

Depois do terceiro capítulo que praticamente matou a série, esse quarto episódio tem como único mérito apostar em uma premissa diferente. Nada de viagens ao passado, a ação aqui se concentra no futuro, quando o mundo já é dominado pelas máquinas. O filme também não tem um único exterminador como vilão, o que altera a dinâmica da série.

Mas, apesar de todas as boas intenções de ressuscitar a série mesmo sem Schwarzenegger (que faz apenas uma ponta), o longa se perde graças a um roteiro descuidado e cheio de furos e uma decupagem chulé indigna de qualquer blockbuster milionário (várias vezes as cenas são cortadas sem explicação e os atores surgem em situações diferentes de onde estavam anteriormente). As cenas de ação ainda são conduzidas sem a menor sutileza pelo cosplay de Michael Bay, McG (“As Panteras”).

De ponto positivo, os efeitos e a produção são bem mais caprichadas do que o terceiro. Ainda assim, é muito pouco e o filme morre na praia, ainda que tente se conectar com a trama das produções anteriores. Nem a presença de Christian Bale (recém-saído do grande sucesso de “Batman: O Cavaleiro das Trevas”) consegue despertar algum interesse. Sam Worthington se sai bem melhor como o personagem meio-homem e meio-máquina.

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