Morte no Nilo

As tramas de mistério geralmente focadas em “quem matou quem?” fizeram a fama de Agatha Christie na literatura. Mas a julgar pelas novas adaptações de obras famosas da escritora feitas por Kenneth Branagh, essas tramas funcionam melhor nos livros do que no cinema. 

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Seguindo a mesma estrutura do insosso “Assassinato no Expresso Oriente”, Branagh reúne em “Morte no Nilo” (uma das últimas produções adiadas infinitamente desde o início da pandemia) um desfile de rostos conhecidos confinados em um espaço fechado em meio a um assassinato que leva a uma investigação comandada pelo famoso detetive belga Hercule Poirot (vivido de forma afetada pelo próprio Branagh). 

Se no filme anterior esse espaço fechado era um trem, em “Morte no Nilo” é um barco. E essa é praticamente a única diferença entre as duas produções, que repetem a mesma dinâmica do detetive interrogando e apontando os possíveis motivos de cada suspeito até descambar em cena com todo o elenco reunido para que Poirot desvende o mistério. 

Com uma encenação de época que agrada os olhos (a direção de arte e os figurinos são impecáveis), Branagh tenta modernizar o filme empregando um estilo de edição mais vertiginoso, com muitas movimentações de câmeras e ângulos inusitados. Mas, assim como em “Assassinato no Expresso Oriente”, a estratégia não funciona muito porque, mais do que estilo, esse tipo de trama pede um bom desenvolvimento. E nisso as adaptações do cineasta irlandês ficam devendo. 

“Morte no Nilo” demora, por exemplo, a desenvolver sua história (um casal récem-casado endinheirado se sente inseguro ao redor dos convidados do próprio casamento) e estabelecer o crime, que vai acontecer com quase uma hora de projeção. Branagh não usa esse tempo, no entanto, para desenvolver nenhum dos personagens, apresentados praticamente na mesma cena da forma mais básica e preguiçosa possível. Isso afeta diretamente a trama porque é difícil se importar com qualquer um dos personagens ou o que acontece com eles.

Repetindo o mesmo mal de uma série de produções com grandes elencos, “Morte do Nilo” desperdiça os atores em papéis pequenos sem desenvolvimento. Annette Bening, por exemplo, mal tem o que fazer em cena, enquanto Tom Bateman (além de Branagh, o único que retorna de “Assassinato no Expresso Oriente”), Russell Brand, a anti-vacina Letitia Wright e Rose Leslie mal registram em cena. Já Gal Gadot e o ator acusado de canibalismo Armie Hammer são apenas bonitos. Os melhores em cena são Emma MacKey (de “Sex Education”) e Sophie Okonedo, mas o filme está menos interessado nelas do que deveria. 

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Ainda que o esmero visual e a direção afetada de Kenneth Branagh mantenham o interesse no filme, falta algo a “Morte no Nilo”, da mesma forma que faltava algo a “Assassinato no Expresso Oriente”: um bom roteiro. Em um filme cujo mote está todo na resposta da pergunta “quem matou quem?”, “Morte no Nilo” se perde porque o mais interessante é esperar saber quem vai morrer. 

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