Ruptura

Ruptura” é simplesmente genial, uma obra-prima cortesia da Apple TV Plus, que tem investido pesado em seu catálogo de séries e minisséries. Da trama original à encenação minimalista e asséptica, tudo na primeira temporada da série (já com segunda garantida) é perfeito e existe em função da construção da história e do desenvolvimento dos personagens.

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Criada pelo estreante Dan Erickson, “Ruptura” é uma dessas séries que não só prende a atenção do espectador, mas deixa o público de queixo caído com a inteligência e originalidade da trama, uma espécie de ficção científica em uma ambientação corporativa que, a princípio, parece absurda, mas faz todo o sentido dentro da lógica capitalista vigente.

No mundo da série, os trabalhadores de alguns departamentos de uma empresa chamada Lumon optaram por um procedimento que divide os seus cérebros em dois. Apesar de continuarem sendo a mesma pessoa, o procedimento separa a mente do funcionário em um lado pessoal e outro profissional, um não se lembrando de nada do que se passa na vida e rotina do outro, inclusive passado, amigos, família, traumas.

Com essa premissa genial, de cara a série remete as outras produções que trabalham com a mesma lógica: o maravilhoso “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, que usa o recurso para lidar com decepções amorosas; e a ótima série “Homecoming”, que, também em um ambiente corporativo, no caso militar, usa o apagamento da memória em situações de traumas de guerra.

Em um mundo atual onde a linha de separação entre o que é trabalho e o que é “vida” parece cada vez mais tênue (amigos agora são contatos; o networking dura 24 horas por dia, sete dias por semana, bem como o whatsapp apitando; não basta apenas trabalhar, é preciso se divulgar nas redes sociais, seja produzindo conteúdo relevante ou fazendo dancinhas; e o LinkedIn é um mar de aprendizado e de experiências grandiosas onde ninguém está insatisfeito), a série joga a discussão sobre o propósito do trabalho no ventilador levando a proposta de uma divisão entre obrigação e lazer às últimas consequências, tudo em nome do empenho, metas e resultados.

Em um andar que parece saído de uma sci-fi distópica, com poucos móveis, paredes brancas e a ambientação impessoal de um “THX 1138” (sci-fi dos anos 1970 dirigida por George Lucas), acompanhamos a rotina de Mark, Irving, Dylan e a novata Helly. Contratada para substituir um antigo funcionário que é demitido repentinamente, Helly não aceita nada bem a nova condição de viver duas vidas separadas, funcionando como catalizadora de uma série de mudanças de comportamentos na divisão, comandada a mão de ferro pelo gerente (Milchick) e a chefe-geral Cobel (vivida da forma mais gélida possível por Patricia Arquette).

É a partir da chegada de Helly que a trama de “Ruptura” se constrói e a dinâmica da empresa se revela, com a descoberta de outros departamentos e de algumas estratégias para manter os funcionários na linha e “felizes” (algo que na vida real lembra as geladeiras com cervejas, as áreas com mesas de sinuca e as paradas para meditação que tantas empresas empregam por aí).

Outro acontecimento que faz a trama avançar é a descoberta, por um atônito Mark, que o procedimento de ruptura pode ser revertido. Promovido a chefe de departamento graças à demissão do funcionário anterior, Mark optou pela ruptura por causa da morte da esposa e precisa lidar com a descontente Helly logo em sua primeira missão como chefe. Contar mais é estragar as surpresas do roteiro e o prazer de se assistir a uma série perfeita, divertida e relevante ao mesmo tempo.

Lindamente filmada, com ótimas edição, fotografia e trilha sonora, “Ruptura” desenvolve sua primeira temporada cercada de mistérios. Além dos funcionários da Lumon estarem sendo vigiados constantemente, assim como na ótima “Enlightened”, eles não têm a menor noção de para que serve o trabalho deles (que mais parece um jogo de videogame sem sentido). Esse é, inclusive, um dos motes para a segunda temporada: “o que a Lumon faz afinal?”.

Dirigida de forma precisa por Ben Stiller (“Caindo na Real” e “Zoolander”) e Aoife McArdle (mais conhecida por videoclipes de bandas como U2 e Coldplay), “Ruptura” ainda acerta no ótimo elenco. Com sua cara de gente comum, Adam Scott (“Parks & Recreation” e “Big Little Lies”) vive o infeliz Mark de forma contida, mostrando uma tristeza tocante em sua vida pessoal e uma determinação quase forçada em sua versão profissional, principalmente ao lidar com a crescente insatisfação dos colegas subordinados. Já Britt Lower interpreta Helly, a nova funcionária que vê o emprego como uma prisão, com determinação e fúria. O resto do elenco traz ainda os ótimos John Turturro, Christopher Walken, Zach Cherry e outros atores que são peças importantes da intrigante engrenagem narrativa da série.

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Se distanciando dos passos de séries que acompanham a rotina de escritórios e departamentos, como “Parks & Recreation” e “The Office”, “Ruptura” opta por uma abordagem mais série, ainda que não totalmente desprovida de humor, para refletir sobre o atual estado nocivo da lógica corporativa em que deixamos de ser pessoas para nos tornarmos apenas números, metas e resultados. A Lumon de “Ruptura” é uma visão exagerada, mas não muito distante do mundo corporativo atual.

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