A escada

Baseada em uma história real que virou, inclusive, um documentário (“Morte na Escada”, disponível na Netflix), “A Escada” parece um quebra-cabeça em que as peças vão se juntando aos poucos. Ainda que a minissérie não tente realmente elucidar o caso da morte de Kathleen Peterson, o roteirista e diretor Antonio Campos narra a trama como se fosse o jogo de tabuleiro Detetive.

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Campos apresenta os personagens para depois dispor os elementos da história de forma desordenada. Da mesma forma que em Detetive os jogadores precisam juntar as informações para chegar ao assassino, na minissérie, o diretor deixa que o próprio espectador tire suas conclusões sobre uma narrativa que mistura problemas familiares, mortes, trama policial e drama de tribunal.

Indo e voltando em várias linhas temporais que, muitas vezes, confundem o público, Campos evita, no entanto, que “A Escada” vire uma bagunça graças a uma direção firme e um texto certeiro, com um roteiro que estraçalha a narrativa para tentar dar conta dos vários personagens dessa intricada história. Em uma jogada de mestre, o diretor ainda se apropria do documentário sobre o caso e o usa como elemento, misturando ficção e realidade em uma teia de mentiras e verdades que tornam a minissérie ainda mais interessante.

Em poucas palavras, “A Escada” conta o caso da morte de Kathleen Peterson, encontrada coberta de ferimentos e banhada em sangue na escada de sua própria mansão na véspera de Natal de 2001. O principal suspeito é, claro, o marido, que, além de depender financeiramente da esposa, ainda escondia dela seus casos extraconjugais com homens. A trama se complica ainda mais porque a primeira esposa do acusado também morreu à beira de uma escada.

Entre mentiras e acusações, relações familiares destruídas, a investigação policial e vários julgamentos, a minissérie tenta dar conta de toda uma novela que se arrastou por mais de 15 anos, com direito ao acusado ainda se envolver romanticamente com a editora do documentário sobre o caso. O que poderia ser um dramalhão mexicano, no entanto, ganha força graças à direção elegante de Antonio Carlos e ao elenco competente que dá vida a personagens complexos, envolventes e/ou repugnantes.

Dos atores coadjuvantes que interpretam os vários filhos dessa história (Sophie Turner, Patrick Schwarzenegger, Odessa Young, Dane DeHaan, Olivia DeJonge) aos advogados da procuradoria e da defesa (Parkey Posey e Michael Stuhlbarg) passando pelos documentaristas (Vincent Vermignon e Juliette Binoche) às irmãs da vítima (Rosemarie DeWitt e Maria Dizzia), a minissérie é um verdadeiro desfile de rostos conhecidos e bons atores. Mas “A Escada” pertence realmente a Toni Collette e a Colin Firth.

Mesmo sendo uma personagem que existe apenas em flashbacks, Collette transforma Kathleen em uma mulher real. Sobrecarregada de trabalho e cercada pelos problemas da filha e enteados, além de se sentir usada financeiramente pelo marido, Kathleen é a força e a base de uma família disfuncional. Em poucas cenas sempre picotadas, Toni Collette consegue mostrar quem é essa mulher. A atriz merece um Emmy só por morrer em uma escada de três formas diferentes.

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Mesmo que seu personagem não tenha carisma e, muitas vezes, só pareça um mentiroso aproveitador, Colin Firth também prende a atenção do público ao manter o ar de mistério de um homem que apresenta todos os elementos necessários para ser o assassino da esposa. Como a vida não é preto no branco, a minissérie foge de maniqueísmos e tenta, ao máximo, ficar em cima do muro, deixando que os personagens quebrados dessa história falem por si. Com direito ainda a uma ótima edição que costura todas essas idas e vindas no tempo de forma primorosa, “A Escada” está disponível na HBO Max.

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