Veneno

Em vários momentos da minissérie “Veneno”, Cristina Ortiz fala que teve uma vida maravilhosa. Mas os oito episódios do programa da HBO Max mostram exatamente o contrário, uma vida conturbada, recheada de polêmicas, brigas, relacionamentos abusivos e de uma certa solidão.

Ícone na Espanha da década de 1990, Cristina Ortiz, “La Veneno” como era mais conhecida, nasceu no interior conservador do país como Joselito e teve que fugir da família para viver sua homossexualidade/transexualidade. De cabeleireira à aprendiz de cantora de cabaré, de prostituta à estrela de TV, Cristina sofreu o pão que a sociedade hipócrita amassou e conquistou a fama graças a uma personalidade forte e um corpão construído em cirurgias.

A julgar pela série, apesar da fama, dinheiro e homens aos seus pés, tudo que a trans mais famosa da Espanha queria era ser aceita pela família. Apesar de romancear a vida da estrela (logo no início da série, os produtores deixam claro que a trama é uma mistura de realidade e ficção), um dos grandes méritos do programa é não ter medo de mostrar o lado sujo e triste da vida de Cristina Ortiz, que chegou, inclusive, a ser presa por fraude.

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Indo e vindo no tempo, a minissérie usa a odisseia da publicação de uma biografia de Cristina Ortiz para narrar a vida de sua protagonista, da infância à adolescência, do auge da fama à decadência do esquecimento. A estratégia funciona porque, além de dar complexidade à personagem, nem sempre digna de empatia, ela a idealiza por meio do olhar da escritora Valéria, um tímido rapaz que se descobre trans ao ter sua vida influenciada pela estrela. Por várias vezes a trama traça uma paralelo entre a vida das duas, costurando a relação entre escritora e biografada de forma dinâmica e bem construída.

Além de bem narrada, “Veneno” ainda é muito bem dirigida, se revezando entre uma abordagem mais lúdica, cheia de cores, luzes e música, e um pé na realidade, não se desviando do lado sombrio e sórdido que permeava a vida de Cristina, que fugia de solidão como o diabo foge da cruz se entregando a qualquer homem que lhe desse atenção, ainda que estivesse claro que eles só estavam com ela por dinheiro.

Outra razão para a minissérie funcionar é o elenco. “Veneno” é, inclusive, a prova de que representatividade importa. Ainda que a maquiagem do programa seja fundamental para a imersão na trama, o sucesso da mesma está nas marcas dos rostos do elenco trans. Das três atrizes que interpretam a protagonista em diferentes fases à jovem escritora e todas as prostitutas e amigas trans que cercam Veneno, a veracidade da série está estampada no elenco. Não há a glamourização ou o conto de fadas de “Pose”, por exemplo. Há apenas a verdade, a melancolia, o medo, a solidão e o desejo nos olhares de personagens que parecem reais, mesmo que a embalagem da minissérie não deixe de lado a fantasia.

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