It’s a Sin

Eu cresci nos anos 1980 e fui adolescente no começo da década de 1990, um período nebuloso em que questões relacionadas à AIDS eram vistas sob uma ótica moralista e preconceituosa. Na época, ser soropositivo e desenvolver a doença era uma sentença de morte, uma espécie de castigo para pessoas que “optaram” por seguir um caminho “desviante”. Sendo assim, a minha geração cresceu tendo que lidar com o fantasma da AIDS e com o estigma da morte certa. 

Mais de 30 anos depois, muito mudou em relação ao HIV. Antes uma incógnita que gerava medo e acentuava o preconceito, hoje se sabe muito sobre o vírus, o que resultou em uma possibilidade de vida saudável para quem é diagnosticado cedo e segue um tratamento contínuo e até mesmo em tratamentos preventivos.

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Pegando emprestado o título de uma música emblemática do Pet Shop Boys, a minissérie “It’s a Sin” (disponível na HBO MAX) narra o surgimento da AIDS na Londres da década de 1980. Em apenas cinco episódios, o programa (criado por Russell T. Davies, da sensacional “Years and Years”) segue um grupo de amigos para mostrar vários aspectos de como a doença assolou a vida de homossexuais em uma época em que a AIDS era conhecida como o “câncer gay”.

Nesse sentido, “It’s a Sin” funciona como um belo documento sobre o descaso e a ignorância que cercaram a doença durante as décadas de 1980 e 1990, já que se acreditava que ela só afetava homossexuais, usuários de drogas e hemofílicos, grupos considerados descartáveis pela sociedade conservadora da época (e de hoje também, nem tudo mudou). 

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A partir dos olhos desse grupo de amigos, jovens cheios de sonhos, vemos pessoas ficarem doentes e desaparecerem de uma hora para outra, acompanhamos a falta de informação gerar dúvidas e certezas que ajudaram na disseminação do vírus e sentimos o medo dos personagens em relação ao preconceito, principalmente por parte de suas famílias. 

“It’s a Sin” não é uma minissérie perfeita. Por ser curta demais, muita coisa não é devidamente desenvolvida e algumas soluções parecem forçadas, feitas mais para gerar comoção do que propriamente fazer a trama avançar (como o destino do amigo mais tímido ou o envolvimento de um outro com um magnata). 

As mudanças entre um tom mais leve e energético e uma abordagem mais melancólica e triste nem sempre funcionam, tirando um pouco da força da história. Mas o assunto é tratado de forma delicada (algumas cenas são realmente tocantes), sem a solenidade que afundava “Pose” no melodrama barato (série que também fala sobre como o HIV afetou a vida de gays e transexuais na Nova York do fim dos anos 80 e início da década de 1990).

Entre falhas e acertos, a minissérie traz uma ótima trilha sonora e tem um bom elenco que vive personagens carismáticos (infelizmente, o protagonista é o menos interessante) e dá voz e vida ao drama invisibilizado de milhares de indivíduos em um momento que marcou e definiu uma (a minha) geração de pessoas GLS (para usar um termo da época). 

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