Big Little Lies – 2ª temporada

Depois de exibir uma primeira temporada impecável e cheia de nuances baseada no livro homônimo da australiana Liane Moriarty, a HBO não se conteve e sucumbiu ao sucesso do programa, dando sobrevida a então minissérie Big Little Lies. O resultado da segunda temporada lembra dois outros produtos culturais que ganharam continuação graças ao que move o mundo (inclusive o do entretenimento): dinheiro.

Uma comparação mais óbvia é com a também série The Handmaid´s Tale, que, assim como a minissérie da HBO, traz uma primeira temporada baseada em uma obra literária e cujas temporadas subsequentes partem da imaginação de roteiristas para dar continuidade a essas tramas descritas nos livros e já totalmente adaptadas pelos programas.

Se nas segunda e terceira temporadas da série do streaming Hulu, os roteiristas patinam e giram em círculos para tentar construir uma sequência coerente às situações descritas pela autora Margaret Atwood (ela própria roteirista de alguns episódios), David E. Kelly tem um pouco mais de sorte na segunda temporada de “Big Little Lies”. Contando com a consultoria da própria Moriarty, o criador da série desenvolve cenários plausíveis para as personagens e as mostram tentando lidar com as consequências da morte de Perry (um Alexander Skarsgård aparecendo em flashbacks) que fecha a primeira temporada.

Entra aqui a segunda comparação. Apesar de ser uma continuação que cria novas tramas que realmente exploram facetas diferentes das personagens, a segunda temporada de “Big Little Lies” chega ao seu final soando tão desnecessária quanto o quarto capítulo de Toy Story, por exemplo. Inicialmente, a ideia parece brilhante, mas o resultado é dispensável, ainda mais depois de um desfecho que praticamente invalida a jornada das personagens em prol de um final em aberto.

É claro que é incrível rever essas grandes personagens novamente sendo defendidas pelas melhores atrizes (Nicole Kidman, Laura Dern, Reese Whiterspoon, Shailene Woodley e Zoë Kravitz). A série ainda ganha pontos com a adição de uma Meryl Streep que vive a sogra (Mary Louise) de Celeste (Kidman) e está pronta para tirar a guarda dos filhos da nora e provar que a morte de seu filho não foi acidental.

Apesar de a premissa funcionar e fazer sentido dentro do contexto da primeira temporada, essa trama da batalha de custódia entre Celeste e Mary Louise acaba se sobrepondo em relação a todas as outras, tirando espaço das outras personagens e tornando seus conflitos apenas pontuais, inclusive desviando da linha narrativa central que deveria mover toda a trama (a investigação sobre o que realmente aconteceu com Perry). Esse desvio é feito ainda de forma nada sutil, resvalando para um melodrama mais interessado em criar cenas impactantes do que propriamente explorar os temas da série (maternidade, sororidade, as consequências da violência doméstica, por exemplo).

Quem mais sofre com essa mudança de foco da série são as personagens de Whiterspoon e Woodley, que, ainda que tenham seus dramas, são relegadas ao segundo plano e têm soluções apressadas. As brigas de Madeleine com a filha mais velha e mesmo sua rixa com Mary Louise, por exemplo, não agregam nada à narrativa e se mostram gratuitas, sobrando à personagem sofrer com a descoberta de sua infidelidade por Ed (um Adam Scott que ganha mais força). Já Jane ganha um par romântico, mas perde totalmente sua relevância.

Dern e Kravitz, que eram essencialmente coadjuvantes na primeira temporada, ganham mais destaque e tempo em cena, mas suas tramas parecem forçadas demais apenas para dar às atrizes o que fazer, já que seus conflitos nunca se conectam realmente com a batalha da custódia que parece dominar a narrativa. Renata encara uma falência e tem rompantes de histeria em praticamente todos os episódios (é ótimo ver Dern gritar, mas, por vezes, parece gratuito). Já Bonnie sofre com as consequências da “grande mentira” que as cinco criam em torno da morte de Perry, mas seu drama só vai fazer sentindo com a chegada de sua mãe e a descoberta de seus traumas de infância.

Outra questão que é deixada de lado são as próprias crianças. A razão central do livro de Liane Moriarty é mostrar que todas essas personagens existem em primeiro lugar como mães e a maneira como elas são vistas a partir da micro-comunidade da escola de seus filhos. Essa abordagem é praticamente abandonada na segunda metade da temporada para focar apenas na luta pela custódia dos gêmeos (as outras crianças somem e perdem destaque).

Claro que a série continua sendo muita bem produzida, mesmo com a polêmica envolvendo os bastidores da pós-produção: Andrea Arnold, diretora da segunda temporada, viu sua versão final ser reeditada pelo diretor da primeira temporada e produtor executivo Jean-Marc Vallée (que não pode dirigir a segunda por ter assumido outra minissérie, Sharp Objects). Há cenas, diálogos e situações realmente bem escritas, fortes e que ganham desempenhos memoráveis das atrizes, o que acaba justificando a existência dessa segunda temporada que nunca alcança a beleza e a maestria da primeira. E o que justificaria uma possível terceira. Eu mesmo não me importaria de vê-la.

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