Águas Profundas

O cinema comercial anda tão assexuado que basta um rápido momento insinuando uma cena de sexo em “Os Eternos”, da Marvel, para despertar a gritaria e virar notícia. Diante desse cenário cada vez mais careta, não é de se estranhar que o aguardado “Águas Profundas”, que marca volta de Adrien Lyne à direção depois de 20 anos, tenha gerado controvérsia e adiamentos e mais adiamentos até a Disney/Fox desistir do filme e vendê-lo para um serviço de streaming (no Brasil, o filme está disponível na Amazon Prime Video).

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Baseado em uma obra de Patricia Highsmith (autora já adaptada várias vezes ao cinema em produções como “O Talentoso Ripley”, “As Duas Faces de Janeiro” e “Carol”) e protagonizado por Ben Affleck e Ana de Armas, o filme tenta mimetizar os thrillers eróticos que pululavam nos cinemas nas décadas de 1980 e 1990. O próprio Adrian Lyne, por exemplo, dirigiu dois exemplares famosos desse “gênero”: “Atração Fatal” e “Infidelidade”, (além de “9 e 1/2 semana de amor”, “Proposta Indecente” e “Lolita”, todos explorando e gerando polêmica graças a tramas que misturavam drama e sexo).

Em “Águas Profundas”, Affleck e de Armas vivem um casal com uma relação no mínimo estranha que gera a curiosidade e a fofoca entre os amigos. Entre brigas e discussões, ele permite que ela tenha vários amigos jovens e atraentes, mas decide não interferir nessas “amizades” da esposa, ainda que ele sinta ciúmes. Em um vai e volta de amigos dela que somem do nada, a morte misteriosa de um desses jovens levanta a suspeita de todos, incluindo um escritor de ficção, sobre o marido.

Com uma premissa interessante que discute fidelidade, obsessão e os limites de um relacionamento, “Águas Profundas” simplesmente não funciona. Vinte anos depois de “Infidelidade”, Adrian Lyne parece ter perdido completamente a mão, fracassando miseravelmente ao entregar um thriller erótico que não é sexy ou tenso. Sem nenhum suspense, resta ao longa focar no drama do casal e imprimir uma certa sofisticação bem comum às produções de Lyne. Mas só isso não salva o longa de um roteiro fraco e sem propósito (escrito a quatro mãos por Zach Helm e Sam Levinson, este o criador de “Euphoria”).

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Com uma trama mal desenvolvida cheia de furos no roteiro e repleta de personagens incoerentes, “Águas Profundas” é muito, muito ruim. A chave do filme, por exemplo, a relação entre Ben Affleck (péssimo) e Ana de Armas (linda) é pouco crível, com uma dinâmica entre os dois que simplesmente não convence, ainda mais para um casal que já tem uma filha pequena. Para piorar, não há química entre os dois atores, algo surpreendente já os dois namoraram durante a produção do filme.

Além dessa encenação equivocada e mambembe, “Águas Profundas” ainda comete o mesmo pecado de vários dos thrillers eróticos do passado, inclusive os do próprio Adrian Lyne, disseminando uma visão um tanto moralista do sexo como algo ligado ao pecado, desvios de caráter e à morte.

Antes mesmo de chegar ao seu final ridículo (com direito a uma perseguição entre um carro e uma bicicleta que não faz o menor sentido), “Águas Profundas” já deixa na boca um gosto de decepção. O único mérito do longa acaba sendo a tentativa de ressuscitar um tipo de filme praticamente em extinção no cinema comercial nos dias de hoje.

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Ainda que o cinema erótico resista, ele está relegado a produções independentes e mais autorais, caso de “Elle” e “Benedetta”, filmes mais recentes de Paul Verhoeven, responsável pelo, talvez, longa definidor dos thrillers eróticos: “Instituto Selvagem”, que acabou de completar 30 anos de lançamento.

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